Trading em Commodities I - A importância de um edge

Da Thinkfn
Colheita de soja e plantação de milho, no município brasileiro de Sorriso, estado de Mato Grosso. Em 2007, Sorriso era o maior produtor de soja do Brasil. (Imagem: www.bducdb.ucdb.br)

Durante vários anos trabalhei numa das maiores Tradings europeias tendo a meu cargo físicos e futuros de milho e complexo de soja (grão, farinha e óleo).

Simplificando, as coisas funcionam assim: está-se diariamente em contacto com os clientes (no meu caso, fábricas de rações e de óleo) negociando entregas entre 6 meses e um ano. Quando se fecha uma venda compra-se imediatamente o equivalente em contratos de futuros e está feito o hedge.

O equivalente? Não, e aqui está porque as Tradings podem vender ao custo ou mesmo abaixo, e ganhar dinheiro.

É que vamos mantendo contacto com os fornecedores (cooperativas, grandes agricultores) e auscultando as previsões de colheita, stocks em armazém, etc etc.

Por outro lado a negociação com os clientes dá-nos a percepção da pressão compradora. É aqui que entra a especulação – toda esta informação diariamente actualizada indica-nos a direcção do mercado no curto prazo.

Se a tendência é de queda fazemos a cobertura a 80% e esperamos que caia para comprar os restantes 20%. Se é de subida, cobrimos a 120% e aguardamos para vender os 20% sobrantes. Como temos no mínimo seis meses para “brincar” ganha-se tanto mais quanto a volatilidade que ocorrer.

Adicionalmente, no complexo de soja, arbitram-se os futuros em grão, farinha e óleo -- se a venda é de grão mas (de acordo com as formulas de transformação) os futuros da farinha estão baratos por ineficiência do mercado, faz-se a cobertura na farinha e também aqui se ganha quando os preços voltarem à normalidade, vendendo os futuros da farinha e comprando os de grão.

Só se começa a desfazer o hedge dois ou três meses antes da entrega – à medida que compramos aos fornecedores vamos vendendo os contratos equivalentes à quantidade comprada. Se o mercado subiu ganhamos nos futuros o que perdemos no físico e vice-versa.

Mas o importante é que tivemos 6 meses para especular e arbitrar. Sempre com informação permanente do Mercado Real – o dos físicos.

Muitos clientes, sobretudo do 3º mundo, por mais que lhes explicasse, não conseguiam perceber como é que as Tradings conseguiam vender mais barato do compravam ao produtor!

Quando deixei a Trading e voltei para Portugal muitos amigos portugueses estranharam nunca mais ter feito commodities, depois de ter negociado milhões de toneladas. Mas aqueles com quem trabalhava diariamente (operadores de pit em Chicago) perceberam perfeitamente. Sem acesso à informação a que estava habituado, seria como conduzir à noite um carro sem faróis nem travões…

Não me recordo se este Fossett teve essa informação; palpita-me que sim, talvez estivesse também ligado a uma Trading. O seu nome é me familiar.

Conheci vários milionários, a começar pelo meu patrão, que fizeram enormes fortunas em commodities. Mas nenhum apenas a especular, sem ligação aos físicos. Só a especular, conheço vários que se arruinaram. Porque lutaram contra os que têm uma vantagem competitiva incontornável.

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Autor

Fogueiro, em 5/2/2005

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