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Os Dez Princípios da Economia, por Mankiw, Traduzido para Principiantes

Da Thinkfn


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Este artigo é uma tradução (revista a 24 de Novembro de 2009) do texto «Mankiw’s Ten Principles of Economics, Translated for the Uninitiated» de Yoram Bauman ([email protected]), revisto a 12 de Junho de 2002. A tradução e publicação no Think Finance foi gentilmente autorizada pelo autor. Todos os direitos do autor inerentes à obra mantêm-se absolutamente inalterados no Think Finance. Todos os direitos desta tradução para a língua portuguesa são reservados pelo autor, pelo tradutor e pelo Think Finance.



Os Dez Princípios da Economia, por Mankiw, Traduzido para Principiantes


por Yoram Bauman[1] (revisto a 12 de Junho de 2002)


A pedra angular do manual de introdução à economia Princípios de Economia (Principles of Economics), por N. Gregory Mankiw, professor de Harvard, é uma sintetização do pensamento económico em Dez Princípios de Economia (ver tabela abaixo). Um exame rápido desta obra, vai provavelmente confirmar ao leitor quaisquer suspeitas de que sintetizar o pensamento económico em Dez Princípios não é tarefa fácil, podendo mesmo levá-lo a suspeitar que a subtileza e concisão exigidas não se encontram na pena de N. Gregory Mankiw.

Encarreguei-me eu de remediar esta infeliz situação. A segunda tabela abaixo sumariza a minha tentativa de traduzir os Dez Princípios de Mankiw para português simples e de, ao fazê-lo, dar ao principiante uma preciosa entrevisão da mente económica em acção. Explicações e detalhes encontram-se nas páginas seguintes, mas o leitor médio é aconselhado a cortar simplesmente a tabela abaixo e trazê-la consigo para o caso (de ora em diante improvável) de se ver confuso com os Princípios de Economia básicos.

Os Princípios de Mankiw
#1 As pessoas defrontam-se com compromissos
#2 O custo de uma coisa é aquilo de que abdicamos para obtê-la
#3 As pessoas racionais pensam marginalmente
#4 As pessoas respondem aos incentivos
#5 O comércio pode ser benéfico para todos
#6 Os mercados são normalmente uma boa forma de organizar a actividade económica
#7 Os governos podem por vezes melhorar os resultados dos mercados
#8 Os padrões de vida de um país dependem da sua capacidade de produzir bens e serviços
#9 Os preços aumentam quando o governo imprime demasiado dinheiro
#10 A sociedade defronta-se com um compromisso de curto prazo entre a inflação e o desemprego


As Traduções de Yoram
#1 As escolhas são más
#2 As escolhas são mesmo más
#3 As pessoas são estúpidas
#4 As pessoas não são assim tão estúpidas
#5 O comércio pode ser prejudicial para todos
#6 Os governos são estúpidos
#7 Os governos não são assim tão estúpidos
#8 Blá, blá, blá
#9 Blá, blá, blá
#10 Blá, blá, blá


Explicações e Detalhes

À primeira vista, o leitor não pode deixar de ficar impressionado pela simplicidade e clareza da tradução. Mas não se confunda aqui acessibilidade com superficialidade: uma análise continuada revelará profundezas e subtilezas escondidas que premiarão ricamente o estudante atento. Alguma reflexão permite-nos identificar um grande número de mistérios e enigmas. Primordial entre todos eles, será provavelmente este: Porque é que os princípios #8, #9 e #10 têm traduções idênticas?

A explicação óbvia e mais imediata é que aqueles são princípios macroeconómicos e que eu, como microeconomista, não estou equipado para compreendê-los, muito menos para traduzi-los.[2] Como acontece frequentemente neste mundo complexo em que vivemos, esta explicação óbvia e mais imediata também é incorrecta. A verdadeira razão porque atribuí as traduções idênticas «Blá, blá, blá» aos Princípios #8, #9 e #10, é que estes princípios dizem precisamente o mesmo, nomeadamente «Blá, blá, blá». Um dia em que tenha umas horitas para matar, vá perguntar a um economista — de preferência, um macroeconomista — o que é que ele quer realmente dizer com os termos «padrões de vida» ou «bens e serviços» ou «inflação» ou «desemprego» ou «curto prazo» ou até «demasiado». Rapidamente percebe que há uma enorme diferença entre, digamos, aquilo que o Princípio #10 diz — «A sociedade defronta-se com um compromisso de curto prazo entre a inflação e o desemprego» — e aquilo que o Princípio #10 significa — «A sociedade defronta-se com um blá de blá entre a blá e o blá». As minhas traduções são simplesmente representações concisas destes significados subjacentes.

Tendo clarificado este ponto, voltemos ao

Princípio #1: As pessoas defrontam-se com compromissos
Tradução: As escolhas são más

O raciocínio subjacente à tradução é óbvio. Imagine, por exemplo, que alguém o aborda e lhe dá a escolher entre uma barra de chocolate Snickers e alguns M&Ms. Tem aqui um compromisso, o que quer dizer que tem de escolher entre um e outro. E ter de escolher entre uma coisa e outra é mau. Diz-se que o Presidente Truman pediu um conselheiro económico com um só lado, porque os seus conselheiros económicos com dois passavam a vida a dizer, «Por um lado... mas por outro lado...».

Aqueles que não receberam educação em economia podem ser tentados a considerar as escolhas boas. Não o são. A ideia (errada) de que as escolhas são boas deve resultar da ideia (igualmente errada) de que a falta de escolhas é má. Isto é simplesmente falso, como revela Mancur Olson no livro A Lógica da Acção Colectiva, (The Logic of Collective Action): «Dizer-se que uma situação está 'perdida' ou que não há esperança, é de certa forma equivalente a dizer-se que é perfeita, pois em ambos os casos qualquer esforço para melhorá-la não se traduz em resultados positivos».

Resulta daqui a minha tradução do primeiro princípio de Mankiw: As escolhas são más. Este conceito pode ser de difícil alcance — nunca ninguém disse que a economia era fácil — mas o leitor em dificuldades poderá ficar mais esclarecido com o

Princípio #2: O custo de uma coisa é aquilo de que abdicamos para obtê-la
Tradução: As escolhas são mesmo más

Para além de transformar a armadilha semântica de Mankiw na simplicidade em si mesma, esta tradução tem a vantagem de estabelecer uma ligação entre o Princípio #1 (As escolhas são más) e o Princípio #2 (As escolas são mesmo más).

Continuando a aprofundar o entendimento do leitor sobre o facto das escolhas serem más — mesmo más — voltemos ao exemplo anterior, onde lhe dão a escolher entre uma barra de chocolate Snickers e alguns M&Ms. Suponhamos, à laia de argumentação, que escolhe os M&Ms. Segundo Mankiw, o custo dos M&Ms é o chocolate Snickers de que abdicou para ter os M&Ms. O seu ganho nesta situação — aquilo a que os economistas chamam o «lucro económico» — é, portanto, a diferença entre o valor que ganha ao receber os M&Ms (digamos, €.75) e o valor que perde ao abdicar do chocolate Snickers (digamos, €.40). Por outras palavras, o seu lucro económico é de apenas €.35. Embora avalie os M&Ms a €.75, ao ter a possibilidade de escolher o chocolate Snickers reduz o seu ganho em €.40. Em consequência, temos o Princípio #2: As escolhas são mesmo más.

De facto, quanto mais escolhas tiver, pior estará. A pior situação de todas seria que alguém o abordasse e lhe desse a escolher entre dois pacotes idênticos de M&Ms. Porque escolher um pacote (que avalia em €.75) significa abdicar do outro (que também avalia em €.75), o seu lucro económico é precisamente zero! Portanto, ser-lhe dada a possibilidade de escolha entre dois pacotes idênticos de M&Ms, é na verdade equivalente a não lhe ser dado nada.

Ora, pode-se desculpar um leigo por julgar que ser-lhe dada a possibilidade de escolha entre dois pacotes idênticos de M&Ms é, na verdade, equivalente a ser-lhe oferecido um único pacote de M&Ms. Mas os economistas não acreditam nisso. Ser-nos oferecido um único pacote de M&Ms significa, efectivamente, escolher entre um pacote de M&Ms (que avaliamos em €.75) e nada (que avaliamos em €0). Escolher os M&Ms resulta num lucro económico de €.75, o que é €.75 mais do que quando nos é dada a escolha entre dois pacotes idênticos de M&Ms.

Chegados a este ponto vale a pena reconhecer que (1) há leitores que não compreenderam na totalidade as subtilezas supra, e (2) esses leitores poderão muito bem ter começado a pensar se não serão, numa palavra, estúpidos. Quaisquer dúvidas que subsistam deverão ser eliminadas pelo

Princípio #3: As pessoas racionais pensam marginalmente
Tradução: As pessoas são estúpidas

Um ponto que é imediatamente óbvio, mesmo para o observador mais casual de inteligência mediana, é que a maioria das pessoas não pensa marginalmente. Por exemplo, a maioria das pessoas que compram laranjas na mercearia pensa assim: «Hum, laranjas a €.25 cada. Acho que vou comprar meia dúzia.» Não pensa assim: «Hum, laranjas a €.25 cada. Vou comprar uma porque o meu valor marginal excede o preço de mercado. Agora vou comprar uma segunda, porque o meu valor marginal ainda excede o preço de mercado...» Nós sabemos que a maioria das pessoas não pensa assim, porque a maioria das pessoas não enche o cesto das compras laranja a laranja!

Mas agora somos inexoravelmente conduzidos a uma conclusão deveras infeliz. Se — como afirma Mankiw — as pessoas racionais pensam marginalmente e se — como todos sabemos — a maioria das pessoas não pensa marginalmente, então a maioria das pessoas não é racional. A maioria das pessoas, por outras palavras, é estúpida. Em consequência, temos a minha tradução do terceiro princípio da economia: As pessoas são estúpidas.

Antes de cair no desespero pelo destino da raça humana, no entanto, sensato seria que o leitor considerasse o

Princípio #4: As pessoas respondem aos incentivos
Tradução: As pessoas não são assim tão estúpidas

O dicionário diz que um incentivo, s.m., é 1. aquilo que leva à acção; estímulo; encorajamento. SIN. ver motivo.

Então aquilo que Mankiw aqui diz é que as pessoas são motivadas pelos motivos, ou que as pessoas são levadas à acção por coisas que levam à acção. Ora, isto pode parecer um pouco como dizer-se que as tautologias são tautológicas — o leitor poderá estar a pensar que as pessoas teriam de ser bastante estúpidas para serem desmotivadas pelos motivos, ou ficarem inactivas em resposta a algo que as leve à acção. Mas lembre-se do Princípio #3: As pessoas são estúpidas. Em consequência, temos a necessidade do Princípio #4, para clarificar que as pessoas não são assim tão estúpidas.

Só as pessoas verdadeiramente estúpidas poderiam não compreender a minha tradução do

Princípio #5: O comércio pode ser benéfico para todos
Tradução: O comércio pode ser prejudicial para todos

Mas, poderá estar o leitor a perguntar-se, a tradução do quinto princípio não é o exacto oposto do próprio princípio? Claro que não.

Para ver porquê, note primeiro que «o comércio pode ser benéfico para todos» é patentemente e obviamente isto: se eu tenho um chocolate Snickers e quero M&Ms e tu tens M&Ms e queres um chocolate Snickers, podemos trocá-los e saímos ambos beneficiados. Mankiw refere-se com certeza a algo mais profundo do que isto? De facto, eu acredito que sim. Para ver a quê, compare as seguintes frases:

A: O comércio pode ser benéfico para todos
B: O comércio vai ser benéfico para todos

Aqui, a Afirmação B é claramente superior à Afirmação A. Por que, então, é que Mankiw usa a Afirmação A? Só pode ser porque a Afirmação B é falsa. Ao afirmar que o comércio pode ser benéfico para todos, Mankiw tenta transmitir uma das subtilezas da economia: o comércio também pode não ser benéfico para todos. Um pequeno passo leva-nos daqui até à minha tradução, «O comércio pode ser prejudicial para todos» (encontra uma demonstração matemática nesta nota de rodapé[3]).

A subtileza evidenciada pelo Princípio #5 pode ver-se mais claramente ainda nos dois princípios seguintes.

Princípio #6: Os mercados são normalmente uma boa forma de organizar a actividade económica
Tradução: Os governos são estúpidos

Princípio #7: Os governos podem por vezes melhorar os resultados dos mercados
Tradução: Os governos não são assim tão estúpidos

Para ver o papel fulcral que o Princípio #5 tem nestas duas afirmações, note que a formulação original do Princípio #5 («O comércio pode ser benéfico para todos») nos conduz ao Princípio #6 («Os governos são estúpidos»). Afinal de contas, se o comércio pode ser benéfico para todos, para que é que precisamos do governo? Mas a tradução do Princípio #5 («O comércio pode ser prejudicial para todos») conduz-nos ao Princípio #7 («Os governos não são assim tão estúpidos»). Porque, afinal, se o comércio pode ser prejudicial a todos, é melhor termos ali um governo que impeça as pessoas de comerciarem!

Tal como os primeiros cinco princípios, os Princípios #6 e #7 demonstram as finas distinções inerentes ao modo económico do pensamento. As pessoas são estúpidas, mas não assim tão estúpidas; o comércio pode ser benéfico para todos, mas também pode ser prejudicial a todos; os governos são estúpidos, mas não assim tão estúpidos. Explorar, definir e delinear estas distinções é o tema das aulas avançadas de economia, das dissertações doutorais em economia e da vasta maioria dos papers na American Economic Review e noutros jornais académicos. Se o leitor decidir seguir este percurso, os princípios fundamentais descritos na primeira página deste artigo serão um guia imprescindível.

Notas

  1. Os seus comentários — humorísticos ou de outra natureza — são bem-vindos, acerca deste ou do meu próprio texto de microeconomia, Microeconomia Quântica, (Quantum Microeconomics), que pode ser encontrado na internet em www.smallparty.org/yoram/quantum
  2. O leitor poderá estar perdido quanto ao significado preciso dos termos «micro» e «macro» — ou, sendo mais preciso, pode nunca os ter achado. Isto não deve ser causa de preocupação: a ausência destes termos nos Dez Princípios de Mankiw indica que não têm importância económica fundamental.
  3. Considere uma pequena cidade com três famílias. Acontece que a Família #1 precisa de um aspirador, a Família #2 precisa de um compressor e a Família #3 precisa de um soprador; cada família avalia a sua necessidade em €200. A sorte parece ter batido à porta desta cidade, porque acontece que a Família #1 tem um compressor, a Família #2 tem um soprador e a Família #3 tem um aspirador. Estes estão parados nas respectivas garagens; nenhuma família tem uso para a sua máquina e, portanto, avalia-a em €0.
    Temos uma situação pronta para beneficiar do comércio: a Família #1 podia comprar um aspirador à Família #3 por €100, a Família #2 podia comprar um compressor à Família #1 por €100 e a Família #3 podia comprar um soprador à Família #2 por €100. Cada família teria um benefício de €200.
    Infelizmente a vida nesta pequena cidade não é assim tão simples; a cidade está localizada num vale sujeito a severos problemas de poluição do ar. Aspiradores e sopradores emitem grandes quantidades de poluentes do ar e, na verdade, cada aspirador ou soprador que seja usado agravará a poluição de tal forma que as contas do hospital (asma, etc.) aumentarão em €80 para cada família. Três aspiradores e sopradores adicionais aumentarão a conta de cada família em €240. Dois resultados advêm. Primeiro, as trocas mesmo assim ocorrerão. Por exemplo, a Família #1 e a Família #3 ambas beneficiarão em €100 -  €80 =  €20 se a Família #3 vender à Família #1 o seu aspirador por €100. Segundo, juntas, as três trocas prejudicam todos: cada família ganha €200 na compra e venda, mas perde €240 em contas hospitalares, para uma perda líquida de €40.
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Links externos

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