Bolha das tulipas

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Panfleto de uma tulipamania alemã, impresso em 1637

O termo mania das tulipas ou tulipomania é aplicado metaforicamente a qualquer onda especulativa de grande escala, que passa da euforia ao pânico, até culminar em uma crise económica.

A expressão está ligada a um episódio da história da Holanda: a crise gerada na República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos durante o século XVII, quando um bulbo de tulipa passou a ser vendido pelo preço equivalente a 24 toneladas de trigo[1]. O ápice dessa crise ocorreu entre 1636 e 1637.

Os factos foram relembrados, mais de dois séculos depois, no livro Extraordinary popular delusions and the madness of crowds[2], escrito pelo popular jornalista inglês Charles Mackay, em 1843. Mackay, no entanto, omitiu-se de mencionar que no mesmo período, os Países Baixos foram também atingidos por uma epidemia de peste bubónica, entre outros contratempos, durante a Guerra dos Trinta Anos. Possuir tulipas no lar era um meio de impressionar e quando a riqueza rolava escada-social abaixo então, todos clamavam por tulipas.


História

A tulipa foi introduzida na Europa durante a metade do século XVI à época do Império Otomano. Pensa-se que seu cultivo nas Sete Províncias tenha começado em 1593, quando Charles de L'Ecluse criou mudas de tulipa capazes de tolerar as ásperas condições climáticas da Holanda, a partir de bulbos que lhe haviam sido enviados da Turquia por Ogier de Busbecq. No começo do século XVII, a flor já era muito usada na decoração de jardins e também na medicina.

Aguarela anónima do século XVII da Semper Augustus, o bulbo mais famoso de tulipa, que foi vendido por preço recorde.

Apesar de não terem perfume e florescerem apenas por uma ou duas semanas ao ano, os jardineiros holandeses apreciavam as tulipas pela sua beleza. Muitos mercadores, artesãos e coleccionadores preferiam coleccionar e pintar tulipas a quadros[3].

Rapidamente a popularidade das flores aumentou. Mudas especiais recebiam denominações exóticas ou nomes de almirantes da marinha holandesa. As mais espectaculares e altamente desejadas tinham cores vívidas, linhas e pétalas flamejantes. A tulipa se tornara um cobiçado artigo de luxo e símbolo de status social e estabelece-se a competição entre membros das altas classes pela posse das variedades mais raras. Os preços disparam.

Em 1623, um simples bulbo de uma variedade famosa de tulipa poderia custar muitos milhares de florins holandeses. Tulipas foram trocadas por terras, animais valiosos. Algumas variedades podiam custar mais que uma casa em Amesterdão. Dizia-se que um bom negociador de tulipas conseguia ganhar seis mil florins por mês, quando a renda média anual, à época, era de 150 florins.

Por volta de 1635, a venda de 40 bulbos por 100.000 florins foi um recorde. Para efeito de comparação, uma tonelada de manteiga custava algo em torno de 100 florins e oito porcos graúdos custavam 240 florins[4]. O recorde foi a venda de um dos mais famosos bulbos, o Semper Augustus, por 6.000 florins, em Haarlem.

Em 1636, tulipas eram vendidas nas bolsas de valores de numerosas cidades holandesas. O comércio das flores era encorajado por todos os membros da sociedade; muitas pessoas vendiam ou negociavam suas posses no intuito de especular no mercado de tulipas. Alguns especuladores tiveram muito lucro, enquanto outros perderam tudo ou quase tudo o que tinham.

Negociantes passaram a vender bulbos das tulipas que tinham acabado de plantar ou ainda que tencionavam plantar (os chamados contratos futuros de tulipas) - apesar de um édito de 1610 ter proibido esse tipo de negócio. O fenómeno foi chamado windhandel ("negócio de vento") e ganhou espaço sobretudo em tavernas de cidades pequenas, onde se usava uma espécie de lousa para indicar as ofertas de preço.

Tulipa, pintura de Pierre-Joseph Redouté.

Em Fevereiro de 1637, os comerciantes de tulipas não conseguiam inflacionar mais os preços de seus bulbos e então começaram a vendê-los. A bolsa de valores estourou. Começou-se a suspeitar que a procura por tulipas não duraria e isso propagou o pânico no mercado. Alguns deixaram de segurar contratos para compra de tulipas, estabelecidos a preços que agora eram dez vezes maiores que os preços de mercado; outros acharam-se na posse de bulbos cujo preço era muito inferior ao que haviam pago. Consequentemente, milhares de holandeses, incluindo executivos e membros da alta sociedade, ficaram arruinados.

As tentativas de resolver a situação fracassaram. Os juízes consideraram as dívidas como contratados através de especulação e portanto, sem valor legal. Assim, as pessoas permaneceram abarrotadas de bulbos comprados antes da quebra, já que nenhum tribunal determinaria a execução do pagamento desses contratos.

Versões menores da tulipamania também ocorreram em outras partes da Europa, entretanto nunca chegaram ao nível da que ocorreu na Holanda. Na Inglaterra de 1800, era comum pagar cinquenta guinéus por um único bulbo de tulipa. Esta soma poderia manter um trabalhador e sua família com comida, roupa e aluguer por seis meses.

Charles Mackay conta uma história da época:

Cquote1.png Um rico mercador havia pago 3.000 florins (280 libras esterlinas) por uma rara tulipa Semper Augustus que desaparece de seu depósito. Depois de vasculhar todo o depósito, viu um marinheiro, que havia confundido o bulbo da tulipa por uma cebola, comendo a tulipa. O marinheiro foi prontamente preso e passou seis meses na prisão.[5] Cquote2.png

No século XX descobriu-se que as pétalas repletas de babados e cores vicejantes,que davam a essa flor um ar apoteótico, eram, de facto, resultado de uma infecção causada por um vírus que só atingia tulipas, conhecido como Tulip Breaking potyvirus[6]. A flor saudável era considerada sólida, macia e monótona.

Referências

  1. ((pt)) Véronique Dumas. As rosas não falam (mas contam a história). Consultado a 17 de Maio, 2007.
  2. ((en)) Charles Mackay. The Tulipomania. Memoirs of Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds. Consultado a 18 de Maio, 2007.
  3. ((en)) Simon Kuper. Petal power. The Financial Times. Consultado a 18 de Maio, 2007.
  4. ((en)) Aline Sullivan. 8 Fat Swine for a Tulip: A Brief History of Bursts. International Herald Tribune. Consultado a 18 de Maio, 2007.
  5. ((en)) Charles Mackay. The Tulipomania, Chapter 3, paragraph 3.4. Memoirs of Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds. Consultado a 22 de Maio, 2007.
  6. ((en)) S. Phillips, 1986. Tulip breaking potyvirus. Plant Viruses Online. Consultado a 18 de Maio, 2007.

Referências extras

  • ((en)) Dash, Mike. Tulipomanoa: The Story of the World's Most Coveted Flower and the Extraordinary Passions It Aroused. ISBN 0-575-06723-3
  • ((en)) Garber, Peter M.. Tulipmania: The Journal of Political Economy. 97.ed.  535-560 p.
  • ((en)) Garber, Peter M.. Famous First Bubbles: The Fundamentals of Early Manias. Cambridge, MA: MIT Press, 2000.
  • ((en)) Goldgar, Anne. Tulipmania: Money, Honor, and Knowledge in the Dutch Golden Age. Chicago, IL: University of Chicago Press, 2007.
  • ((en)) Kindleberger, Charles P.. Manias, Panics, and Crashes: A History of Financial Crises. ISBN 978-0471389453
  • ((en)) Harper's New Monthly Magazine. The Tulip Mania. No. CCCXL.ed. Harper's New Monthly Magazine, Abril de 1876. v. Vol. LII.
  • ((en)) Pavord, Anna. The Tulip. ISBN 0-7475-7190-2
  • ((en)) Pollan, Michael. The Botany of Desire. ISBN 0-375-76039-3
  • ((en)) Doug French, The Dutch monetary environment during tulipomania (2006)

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