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A Arte da Guerra

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A Arte da Guerra (chinês: 孫子兵法; pinyin: sūn zĭ bīng fǎ literalmente "Estratégia Militar de Sun Tzu"), é um tratado militar escrito durante o século IV a.C. pelo estratega conhecido como Sun Tzu. O tratado é composto por treze capítulos, onde em cada capítulo é abordado um aspecto da estratégia de guerra, de modo a compor um panorama de todos os eventos e estratégias que devem ser abordados em um combate racional. Acredita-se que o livro tenha sido usado por diversos estrategas militares através da história como Napoleão, Zhuge Liang, Cao Cao, Takeda Shingen, Vo Nguyen Giap, Mao Tse-tung e o general brasileiro Alberto Mendes Cardoso.

Desde 1772 que existem edições europeias (quatro traduções russas, uma alemã, cinco em inglês], apesar de serem consideradas insatisfatórias. A primeira edição ocidental tida como uma tradução fidedigna data de 1927.

A Arte da Guerra foi traduzida para o português por Caio Fernando Abreu e Miriam Paglia (1995).

Apesar da antiguidade da obra, nenhuma obra ou tratado é tão compreensível e tão actual quanto A Arte da Guerra.

Com seu carácter sentencioso, Sun Tzu forja a figura de um general cujas qualidades são o segredo, a dissimulação e a surpresa.

Edição de bolso americana de A Arte da Guerra.

Hoje, A Arte da Guerra parece destinada a secundar outra guerra: a das empresas no mundo dos negócios. Assim, o livro migrou das estantes dos estrategas para as do economista e do administrador. Embora as tácticas bélicas tenham mudado desde a época de Sun Tzu, esse tratado teria influenciado, segundo a Enciclopédia Britânica, certos estrategas modernos como Mao Tsé-Tung, na sua luta contra os japoneses e os chineses nacionalistas.

Inclusive encontra-se nos escritos militares de Mao-Tse-Tung citações do livro A Arte da Guerra de Sun Tzu.

O general brasileiro Alberto Mendes Cardoso chamou o livro do Sun Tzu de clássico militar.

Índice

A guerra na época de Sun Tzu

Só poderemos apreciar a originalidade do pensamento de Sun Tzu se dispusermos de uma noção das diferenças qualitativas entre as artes de guerrear nos séculos IV e V e as de períodos anteriores. Até 500 a.C., a guerra era, de certo modo, ritual. Efectuavam-se campanhas sazonais, em conformidade com um código mais ou menos estabelecido. Estavam proibidas as hostilidades durante os meses das sementeiras e das colheitas, enquanto no inverno os camponeses semi-hibernavam nas suas cabanas de tijolos, sendo o frio demasiado para se poder combater. Também no verão era quente demais. Teoricamente, pelo menos, as guerras eram interrompidas durante os meses de nojo que se seguiam à morte de um senhor feudal. Em combate, não era correto bater em homens velhos ou aplicar qualquer golpe a quem já estivesse ferido. O governante de boa índole não "massacrava cidades", não "emboscava exércitos adversários", nem levava a guerra para além da estação própria, e nenhum príncipe que se prezasse se baixava a qualquer dissimulação ou aproveitaria qualquer oportunidade desleal.

Quando o rei Chuang, de Ch'u, cercava a capital de Sung, em 594 a.C., a certa altura os mantimentos começaram a escassear, tendo o seu ministro da Guerra observado: "Se os mantimentos nos acabam antes de subjugarmos a cidade, teremos de voltar para casa".

O rei mandou que Tzu-fan subisse a rampa encostada à muralha, da cidade para apreciar os sitiados.

O príncipe de Sung enviou o seu ministro, Hua-Yuan, à muralha para o interceptar, tendo entre os dois ocorrido a seguinte troca de impressões:

Tzu-fan: "Como vão as coisas por aí?"

Hua-Yuan: "Estamos exaustos. Trocamos as crianças e comemo-las; partimo-lhes os ossos e chupamo-los".

Tzu-fan: "Céus! Estão mesmo apertados! No entanto, tinham-me dito que nas cidades cercadas era costume amordaçar os cavalos, quando lhes davam de comer, e enviar somente os ainda gordos ao encontro do inimigo. Como poderá o senhor ser tão franco?".

Hua-Yuan: "Consta-me que um homem superior sente compaixão quando vê outro sofrer e que o homem inferior se regozija com o sofrimento de outrém. Por isso fui franco".

Tzu-fan: "Assim é. Oxalá prevaleçam. O nosso exército tem rações para apenas sete dias".

Tzu-fan informou o rei Chuang da conversa, e este perguntou-lhe: "Como estão eles?"

Tzu-fan: "Exaustos. Trocam as crianças, comem-nas e partem-lhes os ossos para os chuparem".

Rei Chuang: "Céus! Estão mesmo apertados! Resta-nos vencê-los e regressarmos".

Tzu-fan: "É impossível. Já lhes disse que o nosso exército só tem rações para apenas sete dias".

Rei Chuang, zangado: "Mandei-te observá-los. Por que lhes disseste isso?".

Tzu-fan: "Se um Estado tão pequeno como Sung ainda dispõe de um súdito incapaz de mentir, como poderá Ch'u não ter um também? Foi por isso que lhe falei a verdade".

Rei Chuang: "Mesmo assim vamos vencê-los e regressar".

Tzu-fan: "Fique Vossa Majestade aqui. Eu, se mo permitirdes, voltarei para casa".

Rei Chuang: "Se fores para casa., deixando-me, com quem ficarei eu? Regressarei, como desejas".

E assim fez, acompanhando-o o Exército.

Os homens superiores apreciam fazer as pazes. Hua-Yuan contara a verdade a Tzu-fan, conseguindo que o cerco fosse levantado, mantendo-se intacta a integridade dos dois Estados.

Os filósofos e os reis faziam distinção entre guerras correctas e guerras incorrectas. Era moralmente correio a qualquer príncipe esclarecido atacar "uma nação rústica e obscura", civilizar os bárbaros, punir aqueles que voluntariamente desejavam manter-se na cegueira, ou sumariamente arrumar um Estado em degradação. Tais castigos, em perfeito acordo com a vontade do Céu, eram executados pelo próprio governante ou por um ministro por ele delegado. Os comandantes das diferentes colunas eram elementos da aristocracia hereditária, refletindc) a graduação na hierarquia militar a posição na sociedade feudal. Maspero ilustrou essa questão num interessante estudo, onde demonstrou ter o comando dos exércitos do Centro de Chin sido, durante um século, a partir de 573 a.C., monopólio de algumas poucas famílias.

Os exércitos da China antiga eram particulares, tal como as levas feudais europeias o foram. A pedido do soberano, esperava-se que os elementos da nobreza concorressem com determinado número de carros, cavalos, carroças, bois, peões, cozinheiros e carregadores. O tamanho e o gênenj desses contingentes variavam de conformidade com a importância dos feudos, que, oscilando entre poucas vintenas e muitos milhares de famílias, faziam com que os grupos, ao apresentar-se nos pontos de reunião fossem, por certo, extremamente variados.

Como um aldeão valia muito menos do que um boi ou um cavalo, o seu bem-estar não era motivo de grande preocupação. Os servos, analfabetos e dóceis, tinham lugar de pouca importância nas batalhas do tempo, onde o papel principal pertencia aos carros, quadrigas, equipadas com cocheiro, um lanceiro e um arqueiro nobre. Os dispensáveis aldeões, geralmente protegidos por jaquetas estofadas, agrupavam-se em torno dos carros. Um pequeno grupo de alguns selecionasdos entre eles dispunha de escudos de bambu entrançado ou, às vezes, de altamente incómodo e rudemente curtido couro de boi ou de rinoceronte. O seu armamento consistia em adagas ou espadas curtas, lanças de ponta de bronze e ganchos e lâminas cortantes atados com tiras de couro a varas de madeira. O arco era arma só para nobres.

O terreno apropriado aos carros ditava e restringia o decorrer da luta, limitando simultaneamente os elementos táticos. A estrutura feudal não admitia a existência de oficiais não originários da nobreza.

As batalhas na China de antanho eram primitivas refregas, que a nada conduziam na maior parte dos casos. Usualmente, os opositores assentavam arraiais frente a frente, assim se conservando durante vários dias, enquanto os adivinhos examinavam augúrios e os respectivos comandantes executavam sacrifícios propiciatórios.

Quando o auspicioso momento escolhido pelos vaticinadores chegava, toda a hoste, com gritaria que deveria fazer estremecer os céus, se lançava desordenadammente sobre o inimigo. Uma vez no local logo se chegava a uma decisão: ou o atacante era repelido e a sua retirada permitida, ou consaeguia romper as formações contrárias, matava aqueles ainda com disposição para oferecerem oposição ativa, perseguia os fugitivos ao longo de umas centenas de metros, pilhava o que de valor houvesse e regressava ao acampamento ou à sua capital. Raramente se explorava qualquer vitória. Quando muito, apenas algumas ações limitadas e com objetivos limitados eram levadas a efeito.

Pouco antes de 500 a.C, os conceitos moderando o guerrear principiaram a alterar-se. A guerra tornava-se mais feroz. Uma batalha travada em 518 a.C. entre exércitos de Wu e Ch'u retrata-nos macabramente tais mudanças. Foi aqui que o visconde de Wu ordenou que três mil homens condenados se alinhassem frente às suas formações, onde, à vista das hostes inimigas, todos se suicidaram cortando a garganta. Os exércitos de Ch'u e dos seus aliados, aterrados, debandaram.

Quando Sun Tzu surgiu, a estrutura feudal, ou, melhor, os seus últimos resquícios de degradação, já ia sendo substituída por um tipo completamente diferente de sociedade, onde o indivíduo de talento usufruía de muito mais possibilidades. A evolução era gradual, mas verificava-se em todos os campos, incluindo o militar. A originalidade e o empreendimento traziam recompensas…

Uma vez que as levas transitórias de antes, de pouca confiança e ineficientes, já não eram consideradas como adequadas, os grandes Estados passaram a dispor de exércitos permanentes, comandados por oficiais profissionais. O sistema de mobilização foi introduzido junto dos camponeses. Os novos exércitos passaram a ser constituídos por tropas disciplinadas e bem preparadas, às quais se acresciam recrutas com idades variando entre os 16 e os 60 anos. À frente desses exércitos havia tropas de escol, ou de choque, especialmente escolhidas pela sua valentia, habilidade, disciplina e lealdade. A primeira das formações desse género apareceu cerca do ano de 500 a.C., chamando sobre si atenção suficiente para que Mo Tzu comentasse que o rei Ho-lü havia treinado as suas tropas durante sete anos, podendo os seus grupos de escol marchar 300 li (mais ou menos 180 km) sem descansar! Os "guardas" de Ch'u envergavam armadura e elmos, usavam bestas com quinze virotes emplumados, pontas de virote extra, espadas e um suprimento de arroz seco bastante para três dias. Na mesma ocasião surgiram unidades mais ligeiras também. Com exércitos permanentes, dessa forma constituídos, as operações deixaram de ser sazonais, podendo passar a ser levadas a cabo muito mais rapidamente e a representar ameaças bem mais constantes para os adversários em potência.

O tempo dos bravos e dos guerreiros, cuja farra provinha de proezas individuais, acabara. Combates singulares, característica própria de todas as sociedades feudais, poderiam ainda ocorrer aqui e além. Simplesmente, os generais recusavam-se a fazê-lo agora eles próprios.

Quando Wu Ch'i lutou contra Ch'in, houve um oficial que, antes de a batalha se iniciar, não pôde refrear o seu ímpeto. Adiantou-se, cortou algumas cabeças e regressou às suas linhas. Wu Ch'i mandou que o decapitassem.

O comissário do Exército admoestou-o: "Trata-se de um oficial de talento. Não o deveríeis decapitar".

Wu Ch'i contestou: "Acredito que seja talentoso, mas é desobediente".

Ordenou depoisa execução do castigo.

As batalhas tinham-se mudado, transformando-se em operações perfeitamente orientadas. Nem os avançavam desapoiados, nem os covardes debandavam.

Elementos dos novos exércitos, capazes de movimentos coordenados e de acordo com planos preestabelecidos, funcionavam segundo sinais sistemáticos.

A ciência (ou arte) da tática havia nascido. O inimigo atacado por uma unidade cheng (ortodoxa) era vencido pelas unidades ch'i (não ortodoxa, única, rara, maravilhosa), sendo o costumeiro cheng agarrar-se ou fixar-se ao terreno, enquanto as unidades ch'i atacavam os flancos e a retaguarda. Os movimentos de diversão passaram a assumir grande importância e o sistema de comunicações do adversário, a ser um dos principais objetivos.

Muito embora não saibamos responder a muitas questões relativas a pormenores táticos, sabemos, pelo menos, que os fatores tempo e espaço eram calculados com perfeição. A convergência de várias colunas sobre um objetivo preestabelecido fazia parte de uma técnica que os chineses do tempo de Sun Tzu dominavam admiravelmente.

O conceito de "Estado-maior" teve a sua origem na era dos Estados Guerreiros. Estes Estados-maiores incluíam inúmeros especialistas, previsores meteorológicos, cartógrafos, oficiais comissários e engenheiros de túneis e minas. Havia ainda peritos na travessia de rios, de operações anfíbias, de inundações, de ataques com fogo e da utilização de fumo.

Já que o âmago do exército era composto por profissionais bem treinados, representando um pesado investimento, grande atenção era dada ao moral e à correta alimentação das tropas, aos prémios e aos castigos, esses últimos claramente codificados e com equidade concedidos ou administrados. O espírito do exército era, pois, acarinhado a ponto de, às ordens dos seus comandantes, os homens se sentirem dispostos a atirar-se sobre o ferro e o fogo. Os soldados que se distinguiam eram galardoados e promovidos. Tudo isso, lenta mas inexoravelmente, seguia minando a oposição da hierarquia hereditária na tropa.

A doutrina de uma responsabilidade coletiva durante as batalhas deve ter nascido a essa altura. Os comandantes que renunciassem sem autorização eram executados. Se uma seção batesse em retirada e o seu chefe prosseguisse lutando, aqueles que o haviam abandonado eram sumariamente decapitados. Se um comandante de coluna ou brigada recuasse sem ordens para tal, ficava sem a cabeça. Mesmo assim, a promulgação de códigos militares, por muito severos que fossem, correspondia a um passo em frente, e, se é certo que alguns generais os faziam cumprir implacavelmente, outros havia que reconheciam que um arbitra-rismo aterrorizante não era o melhor modo de criar a vontade de combater. A profissionalização dos exércitos abria as portas a gente talentosa e, ao mesmo tempo, ia inibindo generais e oficiais quanto à prática de castigos incrivelmente cruéis e exigências exageradamente desnecessárias.

É claro que nem todos os generais do século IV a.C. atingiram as suas altas posições em virtude da sua habilidade. Era no entanto possível a um homem de valor ascender a postos de comando, independentemente da sua origem, aristocrática ou não, e receber, em investidura cerimonial, a acha-de-armas simbolizando a sua posição de comandante-chefe, com autoridade suprema quando fora da capital. A administração do exército e a sua utilização operacional caber-lhe-iam desse momento em diante. Quando um general passava para além das fronteiras, havia mesmo algumas ordens do seu soberano que poderia esquecer. Perante os seus oficiais, porém, estava sujeito à lei militar.

Melhorias técnicas também influíram na revolução havida na forma de guerrear na China. A introdução de bestas e de armas cortantes de ferro de qualidade suficientemente alta para poder receber e conservar um bom fio tiveram especial importância. Bem antes de a besta ter aparecido, já o arco de reflexão heterogénea era de emprego vulgar.

A besta, invenção chinesa do século IV a.C., disparava pesados virotes, suficientemente fortes para transformar em passadores quaisquer escudos gregos ou macedônios. Crê-se terem sido besteiros de grande pontaria quem tornou o emprego de carros de combate impraticável.

Os exércitos que Sun Tzu conheceu compunham-se de espadeiros, arqueiros, lanceiros (ou alabardeiros), besteiros e carros. A cavalaria só surgiria mais tarde, mas cavaleiros montando sem selas ou estribos já eram empregados como batedores e mensageiros. A infantaria servia-se de dois tipos de lanças, uma com cerca de cinco metros e outra com metade desse tamanho. Essas lanças possuíam um ferro misto, ou seja, uma ponta perfurante, e uma segunda lâmina cortante e enganchante. As lanças nunca serviam como arma de arremesso, visto os chineses já disporem na besta de uma arma de combate a curta distância, de trajetória horizontal, de imensa exatidão e tremenda força de impacto.

As operações no terreno eram normalmente feitas a partir de campos fortificados, traçados segundo a arquitetura das cidades chinesas: um quadrado encaixado em barrancos inclinados de terra rodeado por um fosso. Ruas ou paradas, cruzando-se nos sentidos norte/sul e leste/oeste, permitiam linhas de fogo interligadas. No centro, a bandeira do comandante-chefe drapeja-va sobre o seu quartel-general, rodeado pelas tendas engalanadas dos seus conselheiros e espadeiros de escol, sua guarda pessoal.

Antes de um exército sair do seu acampamento, formava para escutar as exortações do general, que, trovejando, os arengaria da justiça da sua causa e denegriria o selvagem adversário. Os oficiais manifestariam grande satisfação e fariam juras e promessas sobre ensanguentados tambores de guerra. Enquanto a tropa bebia vinho, o seu ânimo era levantado pêlos rodopios de dançarinos de espadas.

Um exército chinês dos Estados Guerreiros em formação de combate devia ser um espetáculo impressionante, com as suas cerradas fileiras e vintenas e vintenas de estandartes repletos de bordados flutuando ao vento. Esses, decorados com tigres, aves, dragões, serpentes, fênix e tartarugas, apontavam a localização do comandante-chefe um pouco atrás do centro e da dos generais comandantes das alas. Movimentações contínuas perturbavam o inimigo e colhiam oportunidades para atuações ch'i contra os seus flancos e retaguarda.

A organização descrita por Sun Tzu dava grande mobilidade às forças em marcha, ao mesmo tempo que a sua grande articulação tornava possível um rápido desdobramento das unidades a entrar na luta. A quina, ou seção de cinco homens, tanto podia avançar a par como em fileira. E como se distribuía o armamento? Estariam os arqueiros e os besteiros em contingentes separados ou enquadrados em pequenas-seções de um "par" e um "trio"? Esses termos levar-nos-iam a crer que sim, mas, pelas escassas informações de que dispomos, parece que por ocasião da batalha de Ma Ling (341 a.C.) agrupavam-se separadamente.

Qual o alcance efetivo dos arcos e das bestas? Mais uma vez nos faltam dados, já que os números registrados não nos merecem confiança. Dizem-nos, por exemplo, que a besta atingia até 600 passos. Trata-se de um exagero, se o critério estivesse baseado no alcance mortal. A força da arma era medida pelo número de escudos que podia atravessar quando disparada de várias centenas de passos. O tipo de escudos não é, porém, descrito, o que torna as informações sem qualquer valor. Fosse como fosse, eram armas poderosas.

Que os processos de cerco já tinham atingido um estágio altamente refinado é confirmado pêlos diversos fragmentos das obras de Mo Tzu, onde vários maquinismos e aparelhos destinados ao assalto de cidades muradas são mencionados. Escadas já eram empregadas muitos séculos antes do seu tempo, e no Livro dos Cânticos há menções a torres móveis, de vários andares, que se podiam encostar às muralhas, tal como a "tartarugas", móveis também, para a proteção de mineiros. Quanto a cercos, encontram-se mais pormenores no Lvro do Mestre Shang. Numa cidade cercada, toda a população era mobilizada, e três exércitos criados, sendo um de homens válidos, que, com provisões abundantes e armas aceradas, enfrentavam o inimigo, outro de mulheres robustas, que erguiam montes de terra, cavavam tocas-de-lobo e fossos, e, finalmente, um outro de crianças e velhos, que davam de comer e de beber, e guardavam o gado.

Em Sun Tzu encontram-se recomendações referentes ao reconhecimento tático, à observação, ao patrulhamento dos flancos, todas medidas que tendem a garantir marchas e acampamentos seguros. Sondar o inimigo antes da luta era essencial.

Desse modo, no século IV, ou algumas décadas mais cedo, a guerra na China já havia atingido a maioridade, estado que manteria, apenas com a oportuna adição da cavalaria, por muitas centenas de anos, sem alteração significativa.

Por esses tempos, os,chineses.dispunham de armas, dominavam táticas e técnicas ofensivas e defensivas que lhes permitiriam poder causar muito mais problemas ao grande Alexandre do que os gregos, os persas e indianos lhe causaram.

Capítulos

A obra é composta por 13 capítulos:

  1. Planejamento Inicial (始計, pinyin: Shǐjì)
  2. Guerreando (作戰, pinyin: Zuòzhàn)
  3. Estratégia ofensiva (謀攻, pinyin: Móugōng)
  4. Disposições (軍行, pinyin: Jūnxíng)
  5. Energia (兵勢, pinyin: Bīngshì)
  6. Fraquezas e forças (虛實, pinyin: Xūshí)
  7. Manobras (軍爭, pinyin: Jūnzhēng)
  8. As nove variáveis (九變, pinyin: Jiǔbiàn)
  9. Movimentações (行軍, pinyin: Xíngjūn)
  10. Terreno (地形, pinyin: Dìxíng)
  11. As nove variáveis de terreno (九地, pinyin: Jiǔdì)
  12. Ataques com o emprego de fogo (火攻, pinyin: Huǒgōng)
  13. Utilização de agentes secretos (用間, pinyin: Yòngjiàn)

Entendendo A Arte da Guerra

A Arte da Guerra, obra permeada pelo pensamento político e filosofico do Tao Te King, também se iguala ao grande clássico taoísta na estrutura formal, composta por uma coleção de aforismos em geral atribuídos a um autor obscuro e quase lendário. Alguns taoístas acreditam que o Tao-Te King seja a transmissão de um conhecimento antigo, compilado e elaborado pelo seu "autor", e não que seja uma obra totalmente original. O mesmo pode-se dizer de A Arte da Guerra. Seja lá como for, ambos os clássicos têm em comum a estrutura geral formada por nas centrais que reaparecem ao longo do texto em contextos diferentes.

1. Planejamento Inicial

O primeiro capítulo de A Arte da Guerra é dedicado à importância da estratégia. Como o clássico I Ching afirma: "O líder planeja no início, antes de começar a agir", e "o líder avalia os problemas e os previne." Em termos de operações militares, A Arte da Guerra coloca cinco aspectos que devem ser determinados antes de empreender qualquer ação: Caminho, o clima, o terreno, a liderança militar e a disciplina.

Nesse contexto, o Caminho (Tao) se refere à liderança civil, ou, antes, ao relacionamento entre a liderança política e a população. Tanto na linguagem taoísta como na confucionista, um governo justo é descrito como "imbuído pelo Tao", e Sun Tzu também fala do Caminho como aquele que "induz o povo a ter o mesmo objetivo que os líderes".

O exame do clima, o problema da estação mais propícia para a ação, também tem relação com o interesse pelo povo, significando tanto a população em geral quanto os militares. O ponto essencial, aqui, é evitar a interrupção das atividades produtivas do povo, as quais dependem das estações, e evadir extremos climáticos que poderiam criar obstáculo ou prejudicar as tropas no campo de batalha.

O terreno deve ser avaliado em termos de distância, grau de dificuldade para a locomoção, dimensões e segurança. A utilização de batedores e de guias nativos é importante nesse ponto porque, como diz o I Ching, "Ir à caça sem um guia é perder o dia". Os critérios oferecidos por A Arte da Guerra para avaliar os líderes militares são as virtudes tradicionais, as mesmas que são recomendadas pelo Confucionismo e pelo Taoísmo medieval: a inteligência, a confiabilidade, a humanidade, a coragem e a austeridade. De acordo com o grande budista Chan, Fushan: "Humanidade sem inteligência é como ter um campo, mas não ará-lo. Inteligência sem coragem é como ter uma vegetação florescente, mas não limpá-la das ervas daninhas. Coragem sem humanidade é saber colher, mas não saber semear." As outras duas virtudes, a confiabilidade e a austeridade, são as que possibilitam ao líder obter, respectivamente, a lealdade e a obediência das tropas.

O quinto elemento a ser avaliado, a disciplina, refere-se à coerência e à eficiência organizacional. A disciplina está muito ligada à confiabilidade e à austeridade, ambas desejáveis nos líderes militares, visto que ela utiliza os mecanismos correspondentes da recompensa e da punição. Muita ênfase é posta na tarefa de estabelecer um sistema claro e objetivo de prémios e castigos que seja aceito pêlos guerreiros como justo e imparcial. Este foi um dos aspectos mais importantes do Legalismo, uma escola de pensamento que surgiu durante o período dos Estados Belicosos e que acentua mais o valor da organização racional c do estatuto da lei do que o de um governo feudal personalista.

Continuando a discussão dessas cinco avaliações, A Arte da Guerra passa a analisar a importância fundamental da simulação: "Uma operação militar envolve simulação. Mesmo sendo competente, mostra-te incompetente. Embora eficiente, aparenta ser ineficiente." É como o Tao-Te King recomenda: "Quem tem grande habilidade mostra-se inapto." O elemento surpresa, tão necessário para a vitória com o máximo de eficiência, depende de conhecer os outros sem ser por eles conhecido, de modo que o segredo e a informação distorcida são considerados artes essenciais.

Falando de maneira geral, a luta corpo a corpo é o último recurso do guerreiro habilidoso. Deste, Sun Tzu diz que deve estar preparado e, no entanto, tem de evitar o confronto direto com um adversário destemido. Mestre Sun recomenda que, em vez de dominar o inimigo diretamente, deve-se cansá-lo pela fuga, fomentar a intriga entre seus escalões, manipular seus sentimentos e usar sua ira e seu orgulho contra si próprio. Assim, em síntese, a proposição inicial de A Arte da Guerra introduz os três aspectos principais da arte do guerreiro: o social, o psicológico e o físico.

2. Guerreando

O segundo capítulo de A Arte da Guerra, sobre a batalha, ressalta as consequências domésticas da guerra, mesmo da guerra externa. A ênfase é posta sobre a velocidade e a eficiência, com advertências incisivas para não prolongar as operações, especialmente campo adentro. A importância de se conservar a energia e os recursos materiais recebe atenção particular. Para minimizar o desgaste que a guerra causa na economia e na população, Sun Tzu recomenda a prática de alimentar o inimigo e de usar as forças cativas por meio de um bom tratamento.

3. Estratégia ofensiva

O terceiro capítulo, planejamento do assédio, também acentua a conservação — o objetivo geral é chegar à vitória mantendo intacto o maior número possível de bens, sociais e materiais, e não destruindo todas as pessoas e coisas que estejam no caminho. Neste sentido, Mestre Sun afirma que é melhor vencer sem lutar.

Várias recomendações táticas reforçam este princípio de conservação geral. Primeiro, por ser desejável vencer sem lutar, Sun Tzu diz que é melhor vencer os adversários logo no início das operações, frustrando assim seus planos. Se isso não for possível, Sun Tzu recomenda isolar o inimigo e torná-lo indefeso. Aqui também poderia parecer que o tempo é essencial, mas, na verdade, velocidade não significa pressa, e uma preparação completa se faz necessária. Sun Tzu conclui enfatizando que, obtida a vitória, esta deve ser completa e total, para evitar os custos de manutenção de uma força de ocupação.

O capítulo prossegue delineando as estratégias para a ação de acordo com o número relativo de protagonistas e de antagonistas, novamente observando que é mais prudente evitar pôr-se em circunstâncias desfavoráveis, se possível. O I Ching diz: "É má fortuna teimar diante de circunstâncias insuperáveis." Além disso, enquanto a formulação da estratégia depende de uma inteligência prévia, é também imperativo adaptar-se às situações reais da batalha. Como afirma o I Ching: "Chegando a um impasse, muda; depois de mudar, podes prosseguir." Em seguida, Mestre Sun relaciona cinco modos de averiguar a possibilidade de vitória, de conformidade com o tema de que guerreiros hábeis lutam só quando têm certeza da vitória. De acordo com Sun, os vitoriosos são aqueles que sabem quando lutar e quando não lutar; os que sabem quando usar muitas ou poucas tropas; aqueles cujos oficiais e soldados formam uma unidade compacta; os que enfrentam os incautos com preparação; e os que são comandados por generais capazes que não são pressionados pelo governo.

Este último ponto é muito delicado, visto que põe uma responsabilidade moral e intelectual ainda maior sobre os líderes militares. Enquanto a guerra nunca deve ser deflagrada pêlos militares, como mais adiante se explicará, mas pelo comando do governo civil, Sun Tzu afirma que uma liderança civil ausente que interfere de modo ignorante no comando de campo "afasta a vitória embaraçando os militares".

Novamente, a questão parece ser a do conhecimento; a premissa de que a liderança militar no campo não deve estar sujeita à interferência do governo civil baseia-se na ideia de que a chave para a vitória é o conhecimento profundo da situação real. Delineando esses cinco modos para determinar qual dos lados tem possibilidade de prevalecer sobre o outro, Sun Tzu afirma que quando conhecemos a nós mesmos e aos outros nunca estamos em perigo; quando conhecemos a nós mesmos, mas não aos outros, temos cinquenta por cento de possibilidade de vencer, e quando não conhecemos a nós próprios nem aos outros, estamos em perigo em qualquer batalha.

4. Disposições

O quarto capítulo de A Arte da Guerra trata da formação, uma das questões mais importantes da estratégia e do combate. Numa postura caracteristicamente taoísta, Sun Tzu declara que o segredo para a vitória são a adaptabilidade e a inescrutabilidade. Como o comentador Du Mu explica: "A condição interior do informe é inescrutável, enquanto que a daqueles que adotaram uma forma específica é claramente manifesta. O inescrutável vence, o manifesto perde." Neste contexto, a inescrutabilidade não é meramente passiva, não significa apenas afastar-se ou esconder-se dos outros; significa, sim, a percepção do que é invisível aos olhos dos outros e a reação a possibilidades ainda não percebidas por aqueles que só observam o manifesto. Discernindo oportunidades antes que sejam visíveis aos outros e agindo com rapidez, o misterioso guerreiro pode tomar conta da situação antes que as coisas se escoem por entre os dedos.

Seguindo esta linha de raciocínio, Sun Tzu volta a pôr ênfase na busca da vitória certa pelo conhecimento do momento de agir e de não agir. Torna-te invencível, diz ele, e enfrenta o adversário no momento em que ele é vulnerável: "Os bons guerreiros tomam posição onde não podem perder e não descuidam das condições que tornam o inimigo propenso à derrota." Revendo essas condições, Sun reelabora alguns dos pontos principais para a avaliação das organizações, tais como a disciplina e a ética versus ambição e corrupção.

5. Energia

O tema do capítulo quinto de A Arte da Guerra é a força, ou o ímpeto, a estrutura dinâmica de um grupo em ação. Aqui, Mestre Sun ressalta as habilidades organizacionais, a coordenação e o uso tanto de métodos de guerra ortodoxos como de guerrilha. Ele enfatiza a mudança e a surpresa, empregando variações intermináveis de táticas e usando as condições psicológicas do adversário para manobrá-lo a posições vulneráveis.

A essência do ensinamento de Sun Tzu sobre a força é a unidade e a coerência na organização, utilizando a força do ímpeto antes de contar com as qualidades e habilidades individuais: "Bons guerreiros buscam a eficácia da batalha na força do ímpeto, não em cada pessoa." É esse reconhecimento do poder do grupo para equilibrar disparidades internas e para funcionar como um único corpo de força que distingue A Arte da Guerra do individualismo idiossincrático dos espadachins samurais do Japão feudal posterior, cujas artes marciais estilizadas são tão conhecidas no Ocidente. Esta ênfase é uma das características essenciais que tornou a antiga obra de Sun Tzu tão útil para os guerreiros organizados em corporação da Ásia moderna, entre os quais A Arte da Guerra é amplamente lida e ainda hoje considerada o clássico inigualável de estratégia no conflito.

6. Fraquezas e forças

O capítulo sexto aborda, a questão da "vacuidade e da plenitude", já mencionadas como conceitos taoístas fundamentais geralmente adaptados às artes marciais. A ideia é encher-se de energia ao mesmo tempo que se esvazia o oponente. Como Mestre Sun diz, isto é feito para nos tornarmos invencíveis e para enfrentar os adversários somente quando estes são vulneráveis. Uma das mais simples dessas táticas é muito conhecida não apenas no contexto da guerra, mas também na manipulação social e dos negócios: "Bons guerreiros atraem o inimigo a si; não são eles que atacam o inimigo." Outra função da inescrutabilidade tão intensamente valorizada pelo guerreiro taoísta é a que recomenda conservar a própria energia ao mesmo tempo que se induz os outros a desperdiçar a sua: "O objetivo de formar um exército é chegar à não-forma", diz Mestre Sun; assim, ninguém poderá elaborar uma estratégia contra ti. Ao mesmo tempo, diz ele, induz o adversário a organizar suas próprias formações, leva-o a esparramar-se; testa o oponente para sondar seus recursos e reações, mas permanece desconhecido.

Neste caso, o informe e o fluido não são apenas meios de defesa e surpresa, mas meios de preservar o potencial dinâmico, a energia que pode ser facilmente perdida por manter-se numa posição ou formação específica. Mestre Sun compara uma força bem-sucedida à água, que não tem forma constante, mas que, como observa o Tao-Te-King, prevalece sobre tudo a despeito de sua fraqueza aparente. Sun afirma: "Uma força militar não tem formação constante, a água não tem forma constante. A habilidade de alcançar a vitória mudando e adaptando-se de acordo com o inimigo é chamada de genialidade."

7. Manobras

O sétimo capítulo de A Arte da Guerra, sobre a luta armada, trata da organização efetiva no campo e das manobras de combate, e também reintroduz vários dos principais temas de Sun Tzu. Começando com a necessidade de informações e preparação, Sun afirma: "Entra em ação somente depois de fazer a devida avaliação. Aquele que por primeiro avaliar a distância do perto e do longe vencerá — está é a lei da luta armada." O I Ching diz: "Prepara-te, e terás boa fortuna." Novamente expondo sua filosofia tática minimalista/essencialista, característica que lhe é muito própria. Sun Tzu continua: "Suga a energia do exército adversário, arranca o coração dos seus generais." Retomando seus ensinamentos sobre a vacuidade e a plenitude, também afirma: "Evita a energia intensa, ataca a moderada e a fugidia." Para aproveitar ao máximo os benefícios dos princípios da vacuidade e da plenitude, Sun ensina quatro tipos de habilidades essenciais ao guerreiro insondável: domínio da energia, domínio do coração, domínio da força e domínio da adaptação.

Os princípios da vacuidade e da plenitude também põem à mostra o mecanismo fundamental dos clássicos princípios yin-yang, sobre os quais os primeiros se baseiam, o mecanismo da reversão de um para o outro nos extremos. Mestre Sun diz: "Não interrompas a marcha de um exército em seu retorno para casa. Um exército cercado deve ter uma saída. Não pressiones um inimigo desesperado." O / Ching diz: "O soberano usa três caçadores, deixando a caça à frente escapar", e "se fores muito inflexível, a ação será mal sucedida, mesmo que estejas certo."

8. As nove variáveis

O capítulo oitavo é dedicado à adaptação, já vista como uma das pedras angulares da arte bélica. Mestre Sun assevera: "Se os generais não souberem adaptar-se de modo vantajoso, mesmo que conheçam a disposição do terreno, não conseguirão tirar proveito dela." O I Ching diz: "Persiste intensamente no que está além de tua profundidade, e tua fidelidade a essa direção trará a desgraça, não o proveito." A adaptabilidade depende naturalmente da prontidão, outro tema que se repete de A Arte da Guerra. Mestre Sun afirma: "O preceito das operações militares é não supor que o inimigo não avance, mas dispor de meios para lidar com ele; não confiar que o adversário não ataque, mas esperar em ter o que não pode ser atacado." O I Ching diz: "Se te sobrecarregares sem ter uma base sólida, serás por fim exaurido, o que te trará dificuldades e má fortuna." Em A Arte da Guerra, a prontidão não significa apenas preparação material; sem um estado mental apropriado, a mera força física não é suficiente para garantir a vitória. Mestre Sun define indiretamente as condições psicológicas do líder vitorioso, enumerando cinco perigos — ter muita disposição para morrer, ter muita ansiedade de viver, encolerizar-se com muita rapidez, ser puritano ou sentimental demais. Mestre Sun afirma que qualquer um desses excessos cria pontos vulneráveis que podem ser facilmente explorados por adversários astutos. O I Ching diz: "Ao aguardar à beira de uma situação, antes que o tempo adequado para entrar em ação chegue, mantém-te alerta e evita ceder ao impulso — assim fazendo, não errarás."

9. Movimentações

O capítulo nono trata de exércitos em manobras estratégicas. Mais uma vez Mestre Sun fala sobre os três aspectos da arte do guerreiro — o físico, o social e o psicológico. Em termos físicos concretos, ele recomenda certos tipos óbvios de terreno que favorecem as probabilidades de vitória: elevações, rio acima, o lado ensolarado dos morros, regiões abundantes de recursos. Com base nas três dimensões, descreve ainda os modos de interpretar os movimentos do inimigo.

Embora Mestre Sun nunca deixe de levar em conta o peso dos números ou do poder material, aqui como em outras partes há uma forte sugestão de que fatores sociais e psicológicos têm condições de superar o tipo de poder que pode ser quantificado fisicamente: "Nas questões militares, não é necessariamente benéfico ter mais: benéfico é evitar agir agressivamente; é suficiente consolidar o teu poder, avaliar os adversários e conquistar o povo; isto é tudo." O I Ching afirma: "Quando tens os meios, mas não estás chegando a lugar nenhum, procura parceiros apropriados, e terás boa fortuna." Do mesmo modo, enfatizando o esforço do grupo dirigido, A Arte da Guerra diz: "O individualista sem estratégia que considera os adversários com leviandade irá inevitavelmente tornar-se um cativo." A solidariedade requer especialmente compreensão mútua e relação estreita entre os líderes e os liderados, adquirida tanto através da educação como do treinamento. O sábio confuciano Meneio disse: "Os que enviam pessoas a operações militares sem educá-las as destroem." Mestre Sun diz: "Dirige-os pelas artes da cultura, unifica-os pelas artes marciais; isto é vitória certa." O IChing diz: "É boa fortuna quando os dirigentes dão suporte a seus dirigidos, ficando atentos a eles e deles extraindo suas potencialidades."

10. Terreno

O capítulo décimo, que analisa a questão do terreno, dá continuidade às ideias de manobras técnicas e à adaptabilidade, delineando tipos de terreno e maneiras adequadas de se acomodar a eles. Requer-se reflexão para transferir os padrões desses tipos de terreno a outros contextos, mas o ponto fundamental está em considerar a relação do protagonista com as configurações do ambiente material, social e psicológico.

Mestre Sun adota esse ponto de vista com observações sobre as deficiências organizacionais fatais pelas quais o líder é responsável. Aqui, novamente, a ênfase está posta no moral da unidade: "Considera teus soldados como filhos bem-amados, e eles de boa vontade morrerão contigo." O I Ching diz: "Os que estão acima asseguram seus lares pela bondade para com os que estão abaixo." Apesar disso, ampliando a metáfora, Mestre Sun também adverte contra ser abertamente indulgente, o que traria como consequência tropas semelhantes a crianças mimadas. Este capítulo ressalta também a inteligência, no sentido de conhecimento preparatório. Sua definição inclui de modo particular a percepção clara das capacidades das próprias forças, da vulnerabilidade do adversário e da disposição do terreno: "Quando conheces a ti mesmo e aos outros, a vitória não está ameaçada; quando conheces o céu e a terra, a vitória é inesgotável." O I Ching diz: "Sê cuidadoso no começo, e não terás dificuldades no fim."

11. As nove variáveis de terreno

O décimo primeiro capítulo, intitulado "Nove Regiões", apresenta um tratamento mais detalhado do relevo, especialmente em termos do relacionamento de um grupo com o terreno. Pode-se compreender que essas "nove regiões" se aplicam não só ao mero território físico, mas também ao "território" em seus sentidos social e mais abstraio.

As nove regiões relacionadas por Mestre Sun são assim denominadas: região de dissolução, região leve, região de contenda, região de tráfego, região de intersecção, região pesada, região ruim, região sitiada e região de morte (ou mortal).

Uma região de dissolução é um estágio de guerra destrutiva para ambos os lados ou guerra civil. A região leve se refere a incursões marginais ao território inimigo. Uma região de contenda é a que pode ser vantajosa para ambos os lados de um conflito. Uma região de tráfego é aquela em que se verifica passagem livre. Região de intersecção é um território que controla artérias de comunicação importantes. Região pesada, em comparação com a leve, refere-se a incursões profundas no território adversário. Região ruim é terreno difícil ou imprestável. Região sitiada é a que tem acesso restrito, própria para emboscada. Região de morte é uma situação em que é necessário lutar imediatamente ou ser destruído.

Ao descrever a tática apropriada a cada tipo de região, Mestre Sun inclui uma reflexão sobre os elementos social e psicológico do conflito, na medida em que esses estão inextricavelmente ligados à reação ao ambiente: "Devem-se examinar os seguintes aspectos: adaptação às diferentes regiões, vantagens da contração e da expansão, padrões de sentimentos humanos e condições."

12. Ataques com o emprego de fogo

O décimo segundo capítulo de A Arte da Guerra, sobre o ataque com fogo, inicia com uma breve descrição dos vários tipos de ataque incendiário e inclui observações técnicas e estratégias para o acompanhamento.

Talvez porque, num sentido material comum, o fogo seja a forma mais perversa de arte marcial (os explosivos existiam no tempo de Sun Tzu, mas não eram usados militarmente), é neste capítulo que encontramos o mais ardente apelo pela humanidade, fazendo eco à ideia taoísta de que as "armas são instrumentos de desgraça que devem ser usadas somente quando for inevitável". Concluindo abruptamente sua breve reflexão sobre o ataque com fogo, Mestre Sun diz: "Um governo não deve mobilizar um exército motivado pela raiva, os líderes militares não devem provocar a guerra movidos pela cólera. Antes, deves agir se for benéfico; caso contrário, deves desistir. A raiva pode se transformar em alegria, a cólera pode se tornar prazer, mas uma nação destruída não pode ser restaurada para a existência, e os mortos não podem ser devolvidos à vida."

13. Utilização de agentes secretos

O décimo terceiro e último capítulo trata da espionagem, fechando assim o círculo com o capítulo inicial sobre a estratégia, para a qual a inteligência é essencial. Novamente guiando-se pelo minimalismo orientado para a eficiência e pelo conservadorismo, para os quais se voltam as habilidades que ensina, Mestre Sun começa falando da importância dos agentes de inteligência nos termos mais enfáticos: "Uma operação militar de importância é um escoadouro grave da nação, e pode ser mantida por anos de luta pela vitória de um dia. Por isso, desconhecer as condições do inimigo por não querer recompensar a inteligência é algo extremamente desumano."

A seguir, Sun define cinco tipos de espiões, ou agentes secretos. O espião local é contratado dentre a população de uma região em que as operações são planejadas. Um espião infiltrado é contratado entre os oficiais de um regime contrário. Um espião reverso é um agente duplo, contratado dentre espiões inimigos. Um espião morto é o que recebe a missão de levar informações falsas. Um espião vivo é o que vem e vai com informações.

Neste ponto, também existe um forte elemento social e psicológico na compreensão que Sun Tzu tem da complexidade prática da espionagem do ponto de vista da liderança. A Arte da Guerra inicia com a questão da liderança, e também termina com a observação de que o uso eficaz de espiões depende do líder. Mestre Sun diz: "Não se pode utilizar espiões sem sagacidade e conhecimento, não se pode usar espiões sem humanidade e justiça, não se pode sem sutileza conseguir a verdade de espiões", e conclui: "Só um governante hábil ou um general brilhante que pode utilizar os mais inteligentes para a espionagem tem garantia de sucesso."

Análise de A Arte da Guerra

O verso inicial do clássico de Sun Tzu constitui uma chave para toda a sua filosofia. "A guerra é uma questão vital para o Estado. Torna-se de suma importância estudá-la com muito cuidado em todos os seus detalhes." Aqui, ele reconhece, sendo o primeiro a fazê-lo, que a luta armada não é uma aberração transitória, mas sim um ato consciente e periódico, suscetível de análise racional.

Sun Tzu acreditava que a força moral e as faculdades intelectuais do homem eram decisivas na guerra e ainda que, se estas fossem corretamente aplicadas, a guerra seria levada a cabo com sucesso, nunca devendo ser efetuada impensada ou desabridamente, mas sempre precedida de medidas que a tornassem fácil de vencer.

Ó grande vencedor frustrava os planos do seu inimigo e rompia as suas alianças. Abria clivagens entre o soberano e os seus ministros, entre comandantes e comandados, entre superiores e inferiores. Os seus espiões e agentes estariam ativos em todo o lado, recolhendo informes, semeando a discórdia e alimentando a subversão. O inimigo devia ser isolado e desmoralizado, a sua força de resistência quebrada. Só assim, e sem qualquer batalha, os seus exércitos seriam vencidos, as suas cidades tomadas e o seu Estado derrubado. Apenas e somente quando o adversário não pudesse ser dominado por aqueles meios se recorreria à força armada, a ser utilizada com a vitória como objetivo único:

a) No menor espaço de tempo possível;

b) Com o mínimo de perda decidas e esforços possíveis;

c) Com o mínimo possível de baixas causadas ao inimigo.

A unidade nacional era para Sun Tzu uma condição essencial para a guerra. Isso só podia ser conseguido graças a um governo devotado ao bem-estar do povo, e não à sua opressão. Sun Hsing-yen estava correto quando observava que as teorias de Sun Tzu se apoiavam na "benevolência e retidão".

Ligando a guerra ao seu mais próximo contexto político, às alianças ou a sua inexistência, à unidade e estabilidade internas e ao moral dos exércitos próprios, em contraste com a desunião dos adversários, Sun Tzu procurava estabelecer uma base realística para o cálculo racional das forças em confronto. A sua percepção quanto à intervenção na guerra de componentes mentais, morais, físicos e circunstanciais revela enorme acuidade. Muito embora Sun Tzu não tivesse sido a primeira pessoa a compreender que a força armada é o último dos árbitros nos conflitos entre Estados, foi de fato o primeiro a dar uma perspectiva real ao entrechoque físico.

Sun Tzu sabia das implicações econômicas da guerra. As suas referências a preços inflacionados, valores desperdiçados, limitações de abastecimentos e as inevitáveis sobrecargas impostas ao povo demonstram o seu conhecimento quanto à importância desses fatores, que até bem recentemente foram negligenciados.

Sun Tzu distinguia perfeitamente entre o que hoje definiríamos como "estratégia nacional" e "estratégia militar". Tal é evidenciado na sua dissertação sobre o cálculo das forças a enfrentar-se, no capítulo 1, onde menciona cinco "assuntos" a ser ponderados nos conselhos: os humanos (o moral e o comando), os físicos (o terreno e o clima) e os doutrinários. Só com a certeza de superioridade nesses pontos encarregava-se o conselho da aferição de efetivos (que Sun Tzu não considerava como decisiva), qualidade das tropas, disciplina, equidade na administração, recompensas e castigos, e preparação.

Por fim, o vetusto escritor afirma não lhe parecer dever ser o objetivo de ações militares o aniquilamento do exército inimigo, a destruição das suas cidades e o devastamento do seu território. "As armas são sempre motivo de maus pressentimentos, a utilizar somente quando outra alternativa não houver.'"

Tzu-lu, um discípulo de Confúcio ocasião discutiua guerra com o Mestre.

"Supondo que o comando das Três Hostes vos fosse entregue, quem levaríeis convosco para vos auxiliar?", perguntou Tzu-lu.

O Mestre respondeu-lhe: "O homem pronto a enfrentar um tigre ou um rio em fúria, sem se importar se iria morrer ou viver, seria o que eu não levaria. Levaria, sim, alguém que olhasse os problemas com a cautela devida e que preferisse o sucesso por meio de estratégia".

Todo o guerreiro se baseia no ludíbrio. Um general competente deve também ser um mestre nas artes complementares da, simulação e da dissimulação. Enquanto vai criando imagens para confundir e iludir o adversário, esconde as suas verdadeiras intenções e a sua real disposição. Quando capaz, simula incapacidade; quando próximo, finge estar longe; quando afastado, que está próximo. Movendo-se de um modo tão intangível como um fantasma à luz das estrelas, será invisível, inaudível. O seu objetivo primeiro será sempre a mente do comandante seu adversário, a situação vitoriosa, um resultado da sua imaginação criadora. Sun Tzu compreendeu que um preâmbulo indispensável em qualquer batalha era o ataque à mente do inimigo.

O perito achega-se ao seu objetivo indiretamente. Escolhendo uma rota imprópria e distante, poderá avançar 500km sem oposição e colher o inimigo de surpresa. Tal tipo de comandante preza acima de tudo a liberdade de ação. Odeia situações estáticas, e por isso só assedia cidades quando outra hipótese não há. Os cercos, dispendiosos em vidas e tempo, levam à abdicação do espírito de iniciativa.

O general sábio nunca é manipulado. Pode acontecer-lhe ter de recuar, mas, quando o faz, fá-lo com tanta rapidez que não é possível apanhá-lo. As suas retiradas destinar-se-ão a atrair o opositor, a desequilibrá-lo, a criar situações apropriadas a contra-ataques, tornando-as pois, e paradoxalmente, ofensivas. Faz a guerra de movimento. Avança com rapidez alada, fere como os raios das "nove camadas celestes” Impõe situações que conduzam a decisões rápidas. Para ele,o fim da guerra é a vitória, e não unia série de operações a conduzir brilhantemente. É do seu conhecimento que as campanhas prolongadas esgotam o Tesouro, arrasam os soldados, fazem subir os preços e espalham a fome pelo povo. "Nenhuma nação jamais se beneficiou com uma guerra demorada."

O comandante competente só desfere o seu golpe quando seguro da vitória. A criação de situações permitindo-o é o último e real propósito dos generais. Antes de travar a batalha, o grande general obriga o inimigo a dispersar-se. Uma vez disperso e tentando defender-se em todos os lados, em todos os pontos fraqueja, sendo num desses pontos devidamente decidido que muitos baterão poucos.

A vulnerabilidade, contudo, não se mede apenas fisicamente. Um comandante adversário pode ser vacilante, impetuoso, impulsivo, arrogante, teimoso ou facilmente ludibriável. Possivelmente, terá divisões mal treinadas, desinteressadas, acovardadas ou mal comandadas. Poderá ter escolhido posições inconvenientes ou dilatado demasiadamente as suas linhas, dispor de mantimentos insuficientes ou encontrarem-se exaustos os seus soldados. Todas essas condições representam pontos fracos, dando assim oportunidade a um general com imaginação para conceber um plano de ação vantajoso.

São exatamente esses mesmos fatores que delineiam o "molde" dos exércitos adversos, sendo de acordo com esse mesmo molde do seu oponente que o comandante prudente estabelece os seus planos. "Amoldem-no", recomenda Sun Tzu. Sempre preocupado com a observação e sondagem do inimigo, o general inteligente vai ao mesmo tempo tudo fazendo para não ser ele próprio "amoldado".

As ações dos instrumentos táticos do general, a força cheng, normal e direta, e a desusada e indireta força ch'i, são recíprocas. Os efeitos de arribas são fecundos. Podemos definir o elemento cheng como de fixação e o ch'i como de flanqueamento ou de envolvimento, ou ainda como a(s) força(s) de distração e de decisão. Há correlação nos golpes por elas produzidos. O cheng e o ch'i são como dois aros interligados. "Quem sabe onde começa um e acaba o outro?" A suas comutações possíveis são infinitas. Um esforço cheng pode passar a ch'i, e um ch'i, a cheng. Desse modo, pode-se redefinir um ataque ch'i como aquele que se executa quando uma decisão é rapidamente materializável, numa área das defesas inimigas caracterizada por vazios e fissuras.

Uma operação ch'i é sempre inesperada, fora do comum, e não ortodoxa; uma cheng será mais patente, mais óbvia. Quando Sun Tzu recomendava para se iniciar com o cheng, mas vencer com o ch'i, insinuava serem necessárias as movimentações ludibriosas como garantia de os golpes decisivos virem a ser dados onde o inimigo menos preparado estiver e onde menos o esperar. É fato, porém, que procurar limitar as conotações entre os dois termos, identificando-os somente com forças em luta, se tomará desencaminhador, já que as operações ch'i e cheng também podem ser levadas a efeito no campo da estratégia.

Para Sun Tzu, a função de um general consiste, parcialmente, em criar alterações e manipulá-las, depois, em proveito próprio. O verdadeiro general pondera a situação antes de se movimentar. Não cai, sem objetivos, em engodos armadilhados. É prudente, mas não hesitante. Compreende haver "alguns caminhos que não devem ser seguidos, alguns exércitos a não serem atacados, algumas cidades a não serem cercadas, algumas posições a não serem disputadas e algumas ordens do soberano a não serem acatadas". Assume riscos ponderados, mas nunca os toma por tomar. Não "enfrenta um tigre nem um rio em fúria sem se importar se vai viver ou morrer", mas, quando a oportunidade lhe surge, age rápida e decisivamente.

A teoria de Sun Tzu, da adaptabilidade às situações, constitui uma importante faceta do seu pensar. Tal como a água se adapta à conformação do terreno, também em guerra terá de ser adaptável, empregando-se com frequência táticas de conformidade com as posições dos adversários. Isso não é, de modo algum, um conceito passivo, dado que, se se der trela suficiente ao inimigo, ele próprio, muitas vezes, se esganará nela. Em determinados casos, deixar-se-ão perder cidades, sacrificar-se-ão porções das próprias forças ou ceder-se-á terreno com o intuito de se ganhar qualquer outro objetivo mais valioso. Este tipo de cedências, disfarçando propósitos maiores, não é mais do que ainda outra das características da flexibilidade mental típica do guerreiro especialista.

Sun Tzu mostra-se conhecedor das contingências e vantagens do clima, preocupando-se de igual modo com o terreno. O general conhecedor do terreno leva o inimigo para o campo perigoso que ele próprio evitará. Escolhe o lugar onde vai pelejar, atrai o inimigo para lá e lá o combate. Para Sun Tzu, um general incapaz de se servir do terreno era ineficaz como comandante.

O capítulo de Sun Tzu a propósito de operações secretas e hoje tão pertinente como quando o compôs, devendo no entanto recordar-se o fato de ele estar já perfeitamente ciente da precisão de compartimentação (celulização) e atuação em todos os planos. Tampouco o valor que atribui aos agentes duplos pode, de modo algum, escapar à nossa atenção. Igualmente as quintas colunas, bem conhecidas pelos chineses e gregos do passado, foram devidamente consideradas por Sun Tzu. O Ocidente pôde recentemente apreciar os seus efeitos, bem como os esforços para as combater, nem sempre com total sucesso. Parece que a análise de Tu Mu quanto às personalidades mais suscetíveis de aliciamento para subversão ainda é bastante merecedora de estudo.

Foi com este ensaio, que horrorizou tantos confucionistas ortodoxos, que Sun Tzu terminou a sua obra A Arte da Guerra

Análise de militares sobre A Arte da Guerra

General Alberto Mendes Cardoso:

"Apenas em 1772 o ocidente tomou conhecimento do tratado de Sun Tzu, por intermédio da versão de um missionário jesuíta em Pequim, Padre Amiot, publicado em Paris.

Sua reedição de 1782 pode, perfeitamente, ter sido lida por Napoleão, então jovem oficial, reconhecido por sua extraordinária curiosidade intelectual, que o fazia leitor ávido de todas as novas ideias publicadas.

Creio, mesmo, que a preferência do grande corso pelas manobras de ala e sua engenhosa capacidade de fazer o inimigo dispersar-se, enquanto ele concentrava suas forças, tem algo a ver com as ideias de manobra indireta e de concentração para a batalha do Mestre chinês.

E mais: não tivesse a viúva de Clausewitz feito publicar o 'Da Guerra', na década de 1830, tão pobremente interpretado em seu conceito do 'forte contra o forte do inimigo' e tão distorcidamente exaltado com base nas campanhas vitoriosas de Napoleão, e a manobra política e estratégica indireta proposta por Sun teria preponderado no século XIX e se projetado no século XX, com grande probabilidade de haver impedido as desgraças de 1870, 1914 e 1939.

O Ocidente somente se deu conta desse desnorteamento de rumo, quando as potências terrestres da Eurásia lhe mostraram, após a II Guerra Mundial, que liam Clausewitz de maneira inversa e que adotavam os princípios de Sun Tzu como dogmas. A política era a continuação da guerra e a estratégia para sua execução deveria ser indireta. Stalin, Kruschev e Mao foram mestres de péssimos alunos ocidentais.

No Oeste, as únicas vozes de peso que se levantaram, advertindo para o erro, foram, inicialmente, Liddell Hart, na Estratégia Operacional, e, mais tarde, André Beaufre, na Estratégia Nacional, Total ou Grande Estratégia.

Ambos retiram do 'artifício do desvio' do autor chinês as bases para as suas 'aproximação indireta' (L. Hart) e 'estratégia indireta" (Beaufre). Porém, é o inglês quem mais deixa evidente a origem Suntzuniana de sua teoria da 'essência concentrada da estratégia operacional e da tática', com a sequência 'nossa dispersão — dipersão do inimigo—nossa concentração' e com a esmagadora preponderância de quinze citações de pensamentos de Sun contra apenas cinco de outros clássicos, na abertura de seu livro-mor.

Verifica-se, modernamente, o crescimento da atenção dedicada ao estudo dos Treze Capítulos nas Forças Armadas dos principais países. Inglaterra, França, Japão, Estados Unidos, União Soviética e a própria China capitaneiam essa atividade.

Quanto a nós, no Brasil, é preciso tirá-los de algumas poucas prateleiras onde aguardam nossa atenção e transformá-los em Treze Momentos da guerra e da vida." - Os 13 Momentos do general Alberto Mendes Cardoso.

General Samuel B. Griffith:

"Ssu-ma Ch'ien, cujo monumental Shih Chi (Arquivos His-óricos ou Arquivos do Historiador) foi concluído pouco depois fio ano 100 a. C., conta-nos que Sun Wu era natural do estado de Chi, e apresentou sua A arte da guerra, no final do século VI a. C., a Ho-lü, rei do semibárbaro povo Wu. Por centenas de anos, contudo, estudiosos chineses têm questionado a veracidade dessa biografia. A maioria deles concorda em afirmar que o livro não poderia ter sido escrito na época citada por Ssu-ma Ch'ien. Meu estudo sobre o texto sustenta-se nessa opinião e aponta para o século IV a. C. como a época em que o livro foi escrito.

A série de ensaios de Sun Tzu não merece nossa atenção e interesse meramente como uma curiosidade do mundo antigo. A arte da guerra é bem mais que isso. Trata-se de uma obra abrangente e bem-elaborada, que se destaca pelo caráter perceptivo e imaginativo que durante séculos lhe garantiu posição de destaque no cânone da literatura militar chinesa.

Esta primeira obra entre os ‘clássicos marciais’ recebeu a atenção devotada de centenas de soldados e estudiosos chineses e japoneses. Entre os mais famosos, temos Ts'ao Ts'ao (155-220 d. C.), o grande general do período dos Três Reinos e fundador da dinastia Wei. Durante o século XI, suas análises sobre o texto, juntamente com as observações de dez dos mais respeitados comentadores, foram compiladas em uma edição ‘oficial’. No último quarto do século XVIII, essa edição foi revisada e comentada por Sun Hsing-yen, versátil estudioso e renomado crítico literário. Desde então, a sua versão, na qual baseei a tradução, tem sido considerada na China como padrão.

O mundo ocidental tomou contato com a obra de Sun Tzu pela primeira vez por meio de um missionário jesuíta em Pequim, o padre J. J. M. Amiot, cuja interpretação A A arte da guerra foi publicada em Paris em 1772, período em que a imaginação dos artistas, artesãos e intelectuais franceses vinha sofrendo forte influência do recém-descoberto mundo das artes e das letras chinesas. Publicações da época trouxeram resenhas favoráveis sobre o livro e o trabalho de Amiot teve ampla aceitação. Foi novamente publicado em uma antologia em 1782. É possível que tenha sido lido por Napoleão, conforme afirmou recentemente um editor chinês. Quando jovem oficial, o futuro imperador era um leitor ávido; é pouco provável que este singular ensaio tenha escapado à sua atenção.

Além da versão de Amiot, haveria ainda quatro traduções para o russo e pelo menos uma para o alemão. Nenhuma das cinco traduções para o inglês é satisfatória; mesmo a de Lionel Gilles (1910) deixa muito a desejar.

Sun Tzu percebeu que a guerra, ‘uma questão de vital importância para o Estado’, exigia estudo e análise; é sua a primeira tentativa de formular uma base racional de planejamento e execução de operações militares. Diferentemente da maioria dos escritores gregos e romanos, Sun Tzu não estava particularmente interessado na elaboração de estratagemas complexos ou técnicas superficiais e transitórias. Seu objetivo consistiu em desenvolver um tratado sistemático destinado a orientar governantes e generais na condução inteligente de uma guerra bem-sucedida. Em sua concepção, o estrategista vabilidoso deve ter a capacidade de subjugar o exército inimigo sem lutar contra ele, invadir cidades sem sitiá-las, derrubar governos sem o uso de espadas sangrentas.

Sun Tzu tinha plena consciência de que um combate envolve muito mais que o confronto entre homens armados. ‘Os números, isoladamente’, afirma, ‘não representam qualquer vantagem.’ Ele atribuiu maior importância aos aspectos morais, intelectuais e circunstanciais envolvidos na guerra do que propriamente aos físicos, e advertiu reis e comandantes para que não depositassem sua confiança única e exclusivamente no poderio militar. Não concebia a guerra como massacre e destruição; conquistar deixando tudo intacto, ou tão intacto quanto possível, era o maior objetivo da estratégia empregada.

Sun Tzu estava convencido de que o planejamento cuidadoso, baseado em informações confiáveis sobre o inimigo, contribuiria para uma decisão militar rápida. Ponderou o efeito da guerra sobre a economia e, sem sombra de duvida, foi o primeiro a observar que a inflação dos preços era uma consequência inevitável das operações militares. ‘Nenhum país’, escreveu, ‘jamais de beneficiou de uma guerra prolongada.’ Ele observa a influência decisiva dos suprimentos durante as operaçães militares e, entre outros fatores, discute a relação entre o soberano e seu comandante; as qualidades morais, emocionais e intelectuais do bom general; organização, manobras, controle, terreno e condições climáticas.

Na visão de Sun Tzu, o exército era o instrumento que desfechava o coup degrâce em um inimigo já tornado vulnerável. Antes do início das hostilidades, agentes secretos cuidavam de romper as alianças do inimigo e realizavam diversas atividades subversivas. Suas missões compreendiam espalhar falsos rumores e informações enganosas, corromper e subverter oficiais, criar e aumentar a discórdia interna e sustentar quintas-colunas. Enquanto isso, os espiões, atuando em todos os níveis, informavam sobre a situação do inimigo. Os planos ‘de vitória’ são baseados em seus relatórios. O marechal Shaposhnikov não foi o primeiro a compreender que o pré-requisito para a vitória é ‘efetuar os devidos preparativos no campo do inimigo para que o resultado seja definido antecipadamente’. Assim prossegue o ex-comandante do Exército Vermelho, em uma notável paráfrase de Sun Tzu: ‘o exército vitorioso ataca urn inimigo desmoralizado e derrotado’.

A arte da guerra tem exercido profunda influência ao longo de toda a história da China e no pensamento militar japonês; é a fonte das teorias estratégicas de Mao Tse-tung e da doutrina tática dos exércitos chineses. Por meio dos mongóis-tártaros, as ideias de Sun Tzu foram transmitidas à Rússia e tornaram-se parte substancial da herança oriental daquele país. Assim, A arte da guerra constitui leitura obrigatória aos que pretendem obter um entendimento mais aprofundado da notável estratégia desses dois países nos dias de hoje." - General Samuel B. Griffith no prefácio de sua tradução de A Arte da Guerra

Trechos do livro

  • "A invencibilidade está na defesa; a possibilidade de vitória, no ataque. Quem se defende mostra que sua força é inadequada; quem ataca, mostra que ela é abundante."
  • "Existem cinco fatores que permitem que se preveja qual dos oponentes sairá vencedor:
    • aquele que sabe quando deve ou não lutar;
    • aquele que sabe como adotar a arte militar apropriada de acordo com a superioridade ou inferioridade de suas forças frente ao inimigo;
    • aquele que sabe como manter seus superiores e subordinados unidos de acordo com suas propostas;
    • aquele que está bem preparado e enfrenta um inimigo desprevenido;
    • aquele que é um general sábio e capaz, em cujas decisões o soberano não interfere."
  • "A água não tem forma constante. Na guerra também não existem condições constantes. Por isso pode-se dizer que é divino aquele que obtém uma vitória alterando as suas táticas em conformidade com a situação do inimigo."
  • "Dos cinco elementos, nenhum é predominante; das quatro estações nenhuma dura para sempre; os dias, uns são longos, outros curtos; a Lua enche e míngua."
  • "Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo lutará cem batalhas sem perigo de derrota;para aquele que não conhece o inimigo, mas conhece a si mesmo, as chances para a vitória ou para a derrota serão iguais;aquele que não conhece nem o inimigo e nem a si próprio, será derrotado em todas as batalhas"
  • "Evitar guerras é muito mais gratificante do que vencer mil batalhas - Sun tzu (孫子)"

Panorama histórico

A Arte da Guerra foi escrito durante o assim chamado período dos Estados Belicosos da antiga China, que durou do quinto ao terceiro século a.C. Constituiu uma época de prolongada desintegração da dinastia Chou (Zhou), que fora fundada havia mais de quinhentos anos pêlos sábios políticos que escreveram o I Ching. O colapso da antiga ordem foi marcado pela desestabilização das relações entre os Estados e pelo estado de guerra interminável entre os aspirantes à hegemonia em meio aos padrões de aliança e oposição sempre em mudança.

O prefácio a Estratégias dos Estados Belicosos (Zhanguo ce / Chan kuo ts'e), uma coleção clássica de histórias sobre as questões políticas e militares dos Estados feudais desse tempo, nos oferece uma descrição gráfica do período dos Estados Belicosos:

Usurpadores se proclamam senhores e reis, Estados governados por pretendentes e conspiradores reforçam seus exércitos para se tornarem superpotências. Imitavam-se cada vez mais nisso, e sua descendência seguiu-lhes o exemplo. No fim, enfrentaram-se e destruíram-se uns aos outros, conspirando com territórios maiores e anexando territórios menores, passando anos em operações militares violentas, enchendo os campos com morticínio. Pais e filhos não estavam próximos uns dos outros, irmãos não estavam seguros uns com os outros, maridos e mulheres se separavam — ninguém podia responder por sua vida. A virtude desapareceu. Nos anos posteriores, isto se tornou cada vez mais extremado, com sete grandes Estados e cinco pequenos Estados lutando uns contra os outros pelo poder. Em geral, isso acontecia porque os Estados Belicosos eram vergonhosamente gananciosos, lutando insaciavelmente para desenvolver-se.

O grande educador e filósofo humanista Confúcio, que viveu exatamente na véspera da era dos Estados Belicosos, passou a vida trabalhando contra a deterioração dos valores humanos que determinou o mergulho de sua sociedade em séculos de conflito. No clássico Os Analectos, de Confúcio, o surgimento iminente dos Estados Belicosos é previsto numa vinheta simbólica do encontro de Confúcio com um governante a quem tentou advertir: "O duque Ling, do Estado de Wei, perguntou a Confúcio sobre formações militares. Confúcio respondeu: 'Aprendi sobre a disposição de vasos rituais, mas nunca estudei questões militares', e partiu no dia seguinte." Como que representando o desaparecimento do espírito humanitário ("Confúcio partiu no dia seguinte") do pensamento e das considerações dos governantes nos séculos de guerra por vir, esta história é retomada pelo filósofo taoísta Chuang-tzu, que viveu no quarto e terceiro séculos a.C., exatamente em meio ao período dos Estados Belicosos. De acordo com o desdobramento que Chuang-tzu faz do tema, Yen Hui, o mais brilhante discípulo de Confúcio, dirigiu-se ao mestre e perguntou-lhe sobre a possibilidade de ir ao Estado de Wei. Confúcio perguntou-lhe: "O que irás fazer lá?" Yen Hui respondeu: "Ouvi dizer que o governante de Wei, no vigor da mocidade, tem um comportamento arbitrário — explora seu país por capricho e não percebe seus próprios erros. Explora seu povo frivolamente, mesmo até a morte. Massas incontáveis morreram naquele Estado, e o povo não tem para onde voltar-se. Ouvi meu mestre dizer: 'Deixa um Estado ordenado e vai a um Estado em desordem — junto à porta do médico, muitos são os doentes.' Eu gostaria de usar o que aprendi para avaliar a orientação que oferece, de modo que o Estado de Wei possa ser curado."

Confúcio disse: "Estás inclinado a ir, mas apenas receberás punição."

Muito poucas pessoas da época deram ouvidos ao humanismo pacifista de Confúcio e de Mêncio. Alguns dizem que isso ocorreu porque não podiam implementar as políticas propostas pêlos confucianos originais; outros dizem que não podiam implementar as políticas porque não prestavam atenção, porque não queriam ser humanitários e justos de fato.

Por outro lado, os que ouviam o humanismo pacifista de Lao-tzu e Chuang-tzu em geral se escondiam e trabalhavam sobre o problema por ângulos diversos. Lao-tzu e Chuang-tzu mostram que o homem agressivo parece cruel, mas na verdade é um tipo emocional; então, eles assassinam o emocional com real crueldade antes de revelar a natureza espontânea da humanidade livre.

Os antigos mestres taoístas mostram como a crueldade real, a frieza da objetividade plena, sempre inclui a pessoa em sua avaliação incisiva da situação. O Buda histórico, um contemporâneo de Confúcio, ele próprio descendente de um clã de guerreiros num tempo em que esta casta estava consolidando seu domínio político, disse que o conflito cessaria se fôssemos conscientes de nossa própria morte.

Esta é a impiedade de Lao-tzu quando ele diz que o universo é desumano e que o sábio vê o povo como cães de palha usados para sacrifícios rituais. Chuang-tzu também apresenta diversos exemplos dramáticos de impiedade com relação a si mesmo como um exercício em perspectiva destinado a levar à cessação do conflito interno e externo.

Essa "desumanidade" não é utilizada pêlos filósofos originais como uma justificativa para uma agressão possessiva quase cruel, mas como uma meditação sobre a falta de sentido último da cobiça e da possessividade que subjazem à agressão.

Na índia, os aspirantes budistas visitavam locais de cremação e contemplavam os cadáveres em decomposição daqueles cujas famílias não dispunham de recursos para uma cerimónia de cremação. Faziam isso para eliminar a cobiça e a possessividade de dentro de si mesmos. De¬pois, voltavam o pensamento para pessoas e sociedades ideais.

Da mesma maneira, Mestre Sun sugere que os leitores contemplem a devastação provocada pela guerra, desde as fases iniciais de traição e alienação até as formas extremas de ataque incendiário e assédio, vista como uma espécie de canibalismo em massa dos recursos humanos e naturais. Com este mecanismo, ele fornece ao leitor um sentimento mais ampliado para o significado das virtudes individuais e sociais esposadas pêlos pacifistas humanitários.

Deste ponto de vista, é natural que se pense sobre a linha taoísta de A Arte da Guerra não como um elemento cultural casual, mas como uma chave para a compreensão do texto em todos os seus níveis. Pela natureza de sua temática manifesta, A Arte da Guerra exigia a atenção das pessoas que tinham menos possibilidades de compreender os ensinamentos pacifistas dos humanistas clássicos.

Como o I Ching preservou certas ideias filosóficas ao longo de toda espécie de mudança política e social pela sua popularidade como oráculo e como livro de conselhos, assim A Arte da Guerra conservou o âmago da filosofia prática taoísta da destruição pela sua antítese.

Muitas vezes se pensa que o paradoxo é um instrumento padrão da psicologia taoísta, utilizado para transpor barreiras imperceptíveis de consciência. Talvez o paradoxo de A Arte da Guerra esteja na sua oposição à guerra. E como A Arte da Guerra guerreia contra a guerra, assim o faz por seus próprios princípios; ela se infiltra nas linhas inimigas, revela os segredos do inimigo e muda o coração das tropas adversárias.

A Arte da Guerra e o taoísmo

Relações com a medicina tradicional chinesa e com as artes marciais

Diz a lenda que um nobre da antiga China certa vez perguntou ao seu médico, membro de uma família de terapeutas, qual dos seus familiares era mais hábil na arte da medicina.

O médico, de uma reputação tão difundida que seu nome era sinônimo da própria ciência médica na China, respondeu:

Meu irmão mais velho percebe o espírito da doença e o remove antes que possa assumir qualquer forma, e por isso seu nome não sai de casa.

Meu segundo irmão mais velho cura a doença quando esta ainda é bem pequena, e por isso seu nome não passa da vizinhança.

Quanto a mim, perfuro as veias, prescrevo poções e massageio a pele, e por isso, de tempos em tempos, meu nome cruza as fronteiras e chega aos ouvidos dos nobres.

Nenhum outro conto da antiga China capta de maneira tão bela a essência de A Arte da Guerra, o clássico mais importante sobre a ciência da estratégia no conflito. Um crítico da dinastia Ming assim se expressa a respeito dessa historieta do médico:

Nada além disso é necessário aos líderes, generais e ministros no governo das nações e na condução dos exércitos.
Yang Chengfu divulgou o Tai Chi Chuan na China tanto como arte marcial quanto como prática para a manutenção da saúde.

De maneira geral, as pessoas consideram as artes terapêuticas e as artes marciais como dois mundos diferentes, mas na verdade são duas realidades paralelas em vários sentidos: no reconhecimento, como se diz popularmente, de que quanto menos delas se precisar, melhor; no sentido de que ambas exigem uma estratégia no momento de lidar com um evento desarmônico, e no sentido de que, em ambas, o conhecimento do problema é a chave para sua solução.

Como na história dos antigos terapeutas, na filosofia de Sun Tzu a eficiência máxima do conhecimento e da estratégia é tornar o conflito totalmente desnecessário:

A maior das habilidades é vencer os exércitos inimigos sem lutar.

E como a história dos terapeutas, Sun Tzu explica que há muitas variantes de artes marciais:

  • O militar de espírito superior faz malograr as maquinações inimigas;
  • A segunda melhor coisa a fazer é minar suas alianças;
  • Em seguida, atacar suas forças armadas;
  • O pior de tudo é sitiar suas cidades.

Observe novamente a semelhança entre o conselho de Sun Tzu e a sabedoria médica:

  • Frustrar as maquinações inimigas é manter-se saudável, de modo a resistir à doença;
  • Minar suas alianças é evitar o contágio;
  • Atacar suas forças armadas é como tomar remédio;
  • Sitiar suas cidades é como realizar uma operação cirúrgica.

Como o irmão mais velho da história era desconhecido devido à sua perspicácia e o irmão do meio mal era conhecido por causa de sua vivacidade, Sun Tzu também afirma que nos tempos antigos os que eram considerados guerreiros hábeis venciam quando a vitória ainda era fácil; por isso, as vitórias de guerreiros habilidosos não eram conhecidas por ardis utilizados nem recompensadas por bravura demonstrada.

Ligações com outros textos clássicos chineses

Esta estratégia ideal pela qual se pode vencer sem lutar, realizar o máximo fazendo o mínimo, comporta a marca característica do Taoísmo, a antiga tradição de conhecimento que deu, na China, suporte tanto às artes terapêuticas como às artes marciais. O Tao-Te King, ou O Livro do Caminho Perfeito, estende à sociedade a mesma estratégia que Sun Tzu atribui aos guerreiros dos tempos primevos: Planeja o difícil enquanto ainda é fácil, faz o que é grande enquanto ainda é pequeno. As coisas mais difíceis devem ser feitas enquanto ainda são fáceis, as maiores, enquanto ainda são pequenas. Por isso, o sábio nunca faz o que é grande, e é por este motivo que sempre alcança a grandeza.

Escrita há mais de dois mil anos, durante um longo período de convulsões sociais, A Arte da Guerra brotou das mesmas condições sociais que deram origem a alguns dos clássicos mais importantes do humanismo chinês, incluindo-se o Tão Te King. Tratando a questão do conflito através de um modo mais racional que emocional, Sun Tzu mostrou que a compreensão do conflito pode levar tanto à sua solução como à decisão de evitá-lo completamente.

Ao longo dos séculos, muitos estudiosos se deram conta da importância do pensamento taoísta em A Arte da Guerra: tanto as obras filosóficas como as políticas do cânon taoísta atestam seu reconhecimento pelo clássico da estratégia. O nível de reconhecimento representado pelos pontos culminantes de A Arte da Guerra — o nível da invencibilidade e o da doutrina do não-conflito — é uma expressão do que o saber taoísta chama de "conhecimento profundo e ação resoluta".

O Livro do Equilíbrio e da Harmonia (Chung-ho chi/Zhongho ji), uma obra taoísta medieval, afirma:

O conhecimento profundo do princípio sabe sem ver, a prática resoluta do Caminho alcança o objetivo sem lutar. Conhecimento profundo é 'saber sem sair pela porta, ver o caminho do céu sem olhar pela janela'. Ação resoluta é 'tornar-se cada vez mais forte, adaptando-se a todas as situações'.

Nos termos de A Arte da Guerra, o guerreiro-mestre é aquele que conhece a psicologia e a mecânica do conflito com tanta precisão que percebe imediatamente qualquer movimento do adversário; é alguém capaz de agir em harmonia perfeita com as situações, ajustando-se aos seus padrões naturais com um mínimo de esforço. O Livro do Equilíbrio e da Harmonia aprofunda a descrição do conhecimento e da prática taoístas em termos familiares à busca do guerreiro: Conhecimento profundo é ter percepção da desordem antes da desordem, do perigo antes do perigo, é ter consciência da destruição antes da destruição, e da calamidade antes da calamidade. Ação resoluta é treinar o corpo sem ficar sobrecarregado pelo corpo, é exercitar a mente sem ser usado por ela, é atuar no mundo sem ser afetado pelo mundo, é realizar as atividades sem ser por elas absorvido.

Pelo conhecimento profundo do princípio, pode-se transformar a desordem em ordem, o perigo em segurança, a destruição em sobrevivência, a calamidade em prosperidade. Pela ação resoluta no Caminho, pode-se levar o corpo ao reino da longevidade, conduzir a mente à esfera do mistério, .proporcionar paz ao mundo e chegar à realização plena das atividades.

Como essas passagens sugerem, os guerreiros da Ásia que praticavam as artes do Taoísmo ou do Zen com o intuito de chegar à serenidade profunda não estavam apenas preparando a mente para que esta suportasse a consciência da morte iminente; eles as usavam também quando queriam alcançar a sensibilidade necessária para reagir às situações sem parar para pensar. O Livro do Equilíbrio e da Harmonia diz: Compreensão num estado de serenidade, realização sem esforço, saber sem ver — este é o sentido e a resposta do Tão Transformador. A compreensão num estado de serenidade pode compreender tudo, a realização sem esforço pode realizar tudo, o saber sem ver pode saber tudo.

Como em A Arte da Guerra, a amplitude de consciência e de eficiência do adepto taoísta é despercebida, imperceptível aos outros, porque seus momentos críticos ocorrem antes que a inteligência comum possa traçar uma descrição da situação. O Livro do Equilíbrio e da Harmonia reza: Sentir e compreender depois da ação não é algo que mereça ser chamado de compreensão. Realizar depois do esforço não é algo que mereça ser chamado de realização. Saber depois de ver não é algo que mereça ser chamado de saber. Esses três procedimentos estão longe do caminho do sentido e da resposta.

Na verdade, ser capaz de fazer algo antes que exista, sentir algo antes que se torne ativo, ver algo antes que surja são três habilidades que se desenvolvem de maneira interdependente. Então, nada é sentido, mas é compreendido; nada é empreendido sem resposta, a nenhum lugar se vai sem proveito.

Um dos objetivos da literatura taoísta é ajudar a desenvolver essa sensibilidade e essa reatividade especiais para dominar as situações da vida. O Livro do Equilíbrio e da Harmonia menciona o "Tao Transformador" com relação aos ensinamentos de análise e de meditação do I Ching, o locus classicus da fórmula da sensibilidade e da reatividade. A exemplo do I Ching e de outras obras da literatura taoísta clássica, A Arte da Guerra tem uma reserva de abstração e um potencial metafórico incalculáveis. E como outras obras da literatura clássica taoísta, a obra revela suas sutilezas de acordo com a mentalidade do leitor e com a maneira pela qual é posta em prática.

A associação das artes marciais com a tradição taoísta remonta ao lendário Imperador Amarelo, terceiro milênio a.C., um dos maiores heróis da cultura chinesa e figura importante da tradição taoísta. Segundo narra o mito, o Imperador Amarelo conquistou tribos selvagens utilizando-se de artes marciais mágicas que lhe teriam sido ensinadas por um taoísta imortal. Diz-se também que compôs o famoso Yin Convergence Classic (Yin-fu chinglYinfu jing), uma obra taoísta muito antiga e que de longa tradição tem recebido interpretações marciais e também espirituais.

Cerca de mil anos mais tarde, os chefes guerreiros que eliminaram os últimos vestígios da antiga sociedade escravagista chinesa e que introduziram conceitos humanistas de governo compuseram os dizeres clássicos do I Ching, outro texto taoísta tradicionalmente utilizado como base tanto para as artes marciais como para as civis. Os princípios básicos do I Ching figuram de modo expressivo na ciência da guerra política de Sun Tzu e são essenciais para o combate individual e para as técnicas de defesa das artes marciais tradicionais que se desenvolveram a partir dos exercícios taoístas.

Depois do "Yin Convergence Classic" e do I Ching, temos o terceiro texto taoísta mais importante, o Tao Te King. Como A Arte da Guerra, o Tao-Te King é produto da era dos Estados Belicosos, os quais assolaram a China na metade do primeiro milênio a.C. Este grande clássico manifesta a atitude predominante com relação à guerra que caracteriza o manual de Sun Tzu: que ela é destrutiva mesmo para os vencedores, com frequência contraproducente, uma alternativa de ação que se justifica somente quando não há escolha: Os que apóiam um líder com o Tão não usam armas para coagir o mundo, pois essas tendem a produzir o efeito contrário — espinhos medram onde exércitos acamparam e anos ruins se seguem a uma grande guerra.

Armas são instrumentos nefastos, não ferramentas dos iluminados. Quando não há outra escolha, é aconselhável manter-se calmo, dominar a avidez, e não comemorar a vitória. Os que celebram a vitória são sanguinários e estes não podem alcançar seu objetivo no mundo.

De maneira semelhante, A Arte da Guerra considera a cólera e a cobiça as causas fundamentais da derrota. Segundo Sun Tzu, é o guerreiro moderado, reservado, calino e cauteloso que vence, e não o impetuoso que busca a vingança nem o ambicioso que vai no encalço da fortuna. O Tao-Te King diz:

O bom cavaleiro não é belicoso, o bom guerreiro não se enraivece, o que conquista o inimigo não tripudia sobre ele.

A tática de agir sem deixar-se levar pelo emocional é parte da estratégia geral da insondabilidade que A Arte da Guerra enfatiza num estilo caracteristicamente taoísta. Sun Tzu afirma:

Os hábeis na defesa escondem-se nas profundezas da terra; os hábeis no ataque manobram no mais alto dos céus. Por isso, podem proteger-se e alcançar a vitória total.

Esta relevância posta na excelência do insondável permeia o pensamento taoísta desde a esfera política até as áreas do comércio e da perícia profissional. Nesse sentido, está dito:

Um bom comerciante esconde seus tesouros e aparenta não ter nada

e

Um bom profissional não deixa marcas.

Esses ditos foram adotados pêlos zen-budistas para representar a sua arte. Os mesmos zen-budistas, que se contavam entre os alunos mais notáveis dos clássicos taoístas e entre os que desenvolveram as artes marciais esotéricas, adotaram a inescrutável visão do caminho do guerreiro tanto no seu sentido literal como no figurado.

A estratégia militar taoísta e o Livro dos Mestres Huainan

Encontramos escritos sobre aspectos civis e militares da organização política em todo o cânon taoísta. O Livro dos Mestres Huainan (Huainanzi ou Huai-nan-tzu) — um dos grandes clássicos taoístas do começo da dinastia Han, instalada no final dramático do período dos Estados Belicosos — dedica um capítulo inteiro à ciência militar taoísta, que retoma o tema central da prática de A Arte da Guerra: Nas artes marciais, é importante que a estratégia seja insondável, que a forma seja oculta e que os movimentos sejam súbitos, para que se torne impossível qualquer preparação.

O que permite que um bom general alcance a vitória é o fato de ter sempre uma sabedoria impenetrável e um modus operandi que não deixa vestígios.

Somente o informe não pode ser afetado. Os sábios se escondem na insondabilidade, e por isso seus sentimentos não podem ser observados; eles agem no nível do informe, e assim suas linhas não podem ser cruzadas.

Em A Arte da Guerra, Sun Tzu escreve:

Sê extremamente sutil, até a total falta de forma. Sê extremamente misterioso, até a ausência total de som. Assim fazendo, dirigirás o destino do inimigo.

Sun Tzu, e também os mestres de Huainan, um grupo de sábios taoístas e confucionistas reunidos por um rei local, reconhecem a existência de um nível de sabedoria em que o conflito não emerge e em que a vitória não é visível ao olhar comum. Porém, ambos os livros foram escritos como testemunho da dificuldade e da raridade dessa experiência. Da mesma forma que a arte da guerra de Sun Tzu, a estratégia dos mestres de Huainan prepara para um conflito real, não apenas como um último recurso, mas como uma operação a ser conduzida sob as condições mais rigorosas, com uma liderança apropriada:

O início da Meditação Taoísta Tao Yin é uma mobilização interna para esvaziar-se e conectar-se ao Tao. Vazio e plenitude integrados numa relação Yin Yang.

Um general deve ver e saber sozinho, no sentido de que deve ver o que outros não vêem e saber o que outros não sabem. Ao ato de ver o que outros não vêem damos o nome de perspicácia, e denominamos genialidade o ato de saber o que outros não sabem. Génios perspicazes vencem primeiro, significando que se defendem de tal modo que são inexpugnáveis e atacam de forma tal que são irresistíveis.

As condições rigorosas da ação militar taoísta são comparadas com sua prática espiritual. Os manuais de meditação e de exercícios taoístas estão repletos de metáforas alusivas à paz e à guerra.

Um dos princípios mais importantes da prática taoísta, derivado dos ensinamentos do / Ching, e que tem implicações tanto físicas como psicológicas, é o do domínio da "vacuidade e da plenitude".

O domínio da vacuidade e da plenitude, ao qual Sun Tzu dedica todo um capítulo de A Arte da Guerra, é fundamental para o desempenho físico das artes marciais taoístas, como o Boxe Absoluto.

É essencial também no aspecto organizacional, ou sociopolítico, da arte de governar, quer no âmbito civil quer no militar. Ao explicar a compreensão da vacuidade e da plenitude como o Caminho para a vitória, os mestres de Huainan afirmam:

Esta é uma questão de vacuidade e de plenitude. Quando existem desentendimentos entre superiores e subalternos, quando generais e oficiais vivem em estado de discórdia, e quando a insatisfação se instala no espírito das tropas, estamos diante da vacuidade. Quando os líderes civis são inteligentes e os militares são bons, quando superiores e subordinados compartilham as mesmas ideias, e quando a vontade e a energia agem solidariamente, a isto damos o nome de plenitude.

Os governantes habilidosos infundem energia em seu povo para que este possa enfrentar a vacuidade dos outros, enquanto que os líderes incompetentes sugam a energia do seu povo ante a plenitude dos outros.

Quando o bem-estar e a justiça se estendem sobre todo o povo, quando as obras públicas são suficientes para atender as emergências nacionais, quando a política de seleção para os cargos públicos agrada aos sábios, quando o planejamento leva ao conhecimento das forças e das fraquezas, temos aí o fundamento da vitória certa.

A base política da força militar, ou a base social da força de qualquer organização, é um ensinamento que também tem suas raízes no I Ching. Em A Arte da Guerra, esse ensinamento é considerado da maior importância. Assim, o primeiro item do primeiro capítulo — sobre a estratégia — recomenda a avaliação do Caminho de um grupo adversário — a fibra moral, a coerência da ordem social, a popularidade do governo ou o moral da população. Segundo Sun Tzu, em condições apropriadas, um pequeno grupo pode impor-se a um grande grupo; e entre as condições que possibilitam esta situação estão a justiça, a ordem, a coesão e o moral. Este é outro ponto central do pensamento chinês, também evidenciado pêlos mestres de Huainan no contexto da estratégia militar:

A força não é apenas uma questão de extensão territorial e de população numerosa, a vitória não é apenas uma questão de armamento eficiente, a segurança não implica só muralhas altas e valas profundas, autoridade não é simplesmente dar ordens estritas e aplicar punições frequentes. Os que estruturam uma organização viável sobreviverão a despeito de serem pequenos, enquanto que aqueles que instituem uma organização moribunda perecerão mesmo sendo grandes.

Comentários de Zhuge Liang, seguidor de Sun Tzu

Zhuge Liang.

Este mesmo tema foi ressaltado por outro grande estrategista militar da antiga China, Zhuge Liang, que viveu no século III d.C. Liang seguia os ensinamentos de Sun Tzu e tornou-se lendário por sua genialidade:

O Tao das operações militares repousa num povo harmonizado. Quando o povo está em harmonia, ele lutará naturalmente, sem precisar ser incentivado a isso. Se os oficiais e os soldados suspeitarem uns dos outros, os guerreiros não formarão um grupo coeso; se um conselho amigo não foi ouvido, os medíocres falarão e criticarão às ocultas. Quando reina a hipocrisia, mesmo que tenhas a sabedoria dos antigos reis-guerreiros, não poderas derrotar um único campônio, que dirá uma turba deles.

É por isso que a tradição afirma:

Uma operação militar é como o fogo; se não for detida, extinguir-se-á por si mesma.

A posição de Zhuge como génio prático é tão elevada, que seus escritos, seus projetos e os comentários sobre ele fazem parte do cânon taoísta. Como A Arte da Guerra e os clássicos taoístas, a filosofia de guerra preconizada por Zhuge trata o positivo através do negativo, segundo a doutrina taoísta da "não-ação":

Nos tempos antigos, os que governavam bem não se preparavam para a guerra, os que se preparavam bem para a guerra não delimitavam linhas à combate, os que delimitavam bem as linhas de combate não lutavam, os que lutavam bem não perdiam e os que perdiam bem não pereciam.

Esta constatação está em consonância com a ideia de combate como último recurso, o ideal de vencer sem lutar oferecido por A Arte da Guerra, que, por sua vez, segue o ensinamento do Tao-Te King. Zhuge Liang também cita a clássica advertência extraída deste respeitado texto taoísta:

Armas são instrumentos de maus presságios que devem ser usadas somente quando for inevitável.

Mas ele também partilha a conciência histórica taoísta de que a era da humanidade original já tinha passado e, como Sun Tzu, estava pessoalmente envolvido numa época de furiosas convulsões civis. É por isso que a obra Zhuge constante do cânon taoísta contém uma visão racional e também ensinamentos práticos para a segurança política e militar, os quais se aproximam muito dos apregoados por Sun Tzu:

Administrar os negócios militares significa gerir as questões de fronteiras, ou exercer a direção nas regiões mais remotas, de modo a tranquilizar o povo com relação a perturbações maiores.

Esta administração é feita pela autoridade e pela bravura militar, que executa os violentos e os rebeldes para proteger o país e manter o solo pátrio seguro. É por isso que a civilização requer a existência do aparato militar.

Esta é a razão pela qual os animais têm garras e presas. Quando estão alegres, brincam um com o outro; quando estão raivosos atacam-se mutuamente. Os homens não têm garras nem presas e por isso fabricam armaduras e armas para se defender.

Assim também as nações têm exércitos para socorrê-las e os governantes têm ministros para ajudá-los. Quando o que socorre é forte, a nação está segura; quando o que auxilia é fraco, a nação está em perigo.

Quanto a este ponto, Zhuge adota integralmente a doutrina de Sun Tzu e faz o mesmo com relação à importância que este atribui à liderança e à base popular. No esquema de Sun Tzu, tanto os líderes civis como os militares são os primeiros que devem ser investigados. Zhuge segue Sun Tzu e os mestres de Huainan: para eles, a força da liderança reside nas qualidades pessoais e no apoio popular. Para os taoístas, o poder é moral e também material. Eles acreditam que o poder moral se manifesta como autodomínio e também como influência sobre as outras pessoas. Ao explicar o poderio de uma força de defesa nacional, Zhuge escreve:

Isto, por sua vez, depende dos generais investidos de liderança militar. Um general que não seja popular não é de ajuda para a nação, não é um líder do exército.

Um general que "não é popular" é alguém que, segundo outra maneira de interpretar o texto, "renega o povo". Sun Tzu ressalta a unidade das vontades como fonte primeira da força, e sua filosofia minimalista da guerra é um desdobramento natural da ideia central do interesse comum; com base nesse princípio, Zhuge Liang novamente cita o Tao-Te King para expressar o ideal do guerreiro sábio devotado ao corpo da sociedade como um todo

Armas são instrumentos de maus presságios, que devem ser usadas somente quando for inevitável.

Zhuge também segue de perto A Arte da Guerra quando salienta que se deve evitar a ação sem estratégia e também a ação desnecessária:

O uso de armas se justifica somente depois de teres determinado a tua estratégia. Examina com cuidado as condições do clima e do terreno, e escrutina o coração do povo. Exercita os soldados no uso do equipamento militar, deixa claros os padrões de recompensa e de punição, observa a estratégia dos adversários, fica atento às passagens perigosas no caminho, distingue os lugares seguros dos perigosos, levanta as condições de ambos os lados, não te descuides do momento de avançar e do momento de recuar, adapta-te ao andamento das circunstâncias, define as medidas de defesa e, concomitantemente, reforça tua força de ataque, promove os soldados por sua habilidade, planeja para o sucesso, leva em conta a questão da vida e da morte — só quando tiveres feito tudo isso é que deves enviar exércitos confiados a generais que terão o poder de capturar os adversários.

A velocidade e a coordenação, fundamentais para o sucesso, de acordo com a arte da guerra de Sun Tzu, decorrem não só da preparação estratégica, mas também da coesão psicológica de que o líder depende. Zhuge escreve:

Um general é um comandante, um instrumento útil a uma nação. Estabelecendo a estratégia antes de executá-la, sua ordem é como se fosse levada boiando numa torrente, sua conquista é como uma garra segurando sua presa. Como um arco retesado prestes a disparar, como uma máquina pronta para a ação, ele irrompe e avança por qualquer lado que se volte, e mesmo inimigos bem preparados perecem. Se o general não tiver previsão e os soldados não tiverem ímpeto, a mera estratégia sem a união das vontades não será suficiente para impor medo ao inimigo mesmo que tenhas milhares de tropas.

Mencionando o clássico de Sun Tzu e considerando-o manual definitivo para uma estratégia bem-sucedida, Zhuge conclui seu ensaio sobre a organização militar resumindo os pontos principais de A Arte da Guerra como ele os incorporou em sua própria prática, centrando-se naqueles aspectos do treinamento e do estado de espírito dos guerreiros que derivam da tradição taoísta:

Não nutras sentimentos de aversão a ninguém que não te tenha mostrado inimizade, não lutes com ninguém que não tenha se oposto a ti. A verdadeira habilidade de um engenheiro só pode ser percebida pêlos olhos de um perito, a operação dos planos de batalha somente pode ser deflagrada através da estratégia de Sun Tzu.

Seguindo Sun Tzu, Zhuge põe em evidência as vantagens da surpresa e da velocidade, táticas capazes de reverter condições desvantajosas que de outro modo seriam insuperáveis:

O planejamento deve ser sigiloso, o ataque deve ser rápido. Quando um exército atinge seu objetivo como um gavião agarra sua presa e luta como um rio que irrompe de uma represa, seus adversários se dispersarão antes que o exército se desgaste. É esta a utilidade da rapidez do ataque de um exército.

Conforme foi mencionado acima, um dos pontos mais importantes da ênfase da arte da guerra de Sun Tzu é a objetividade, e seu clássico ensina como avaliar situações de uma maneira imparcial. Zhuge segue Sun Tzu também nesse aspecto, evidenciando a vantagem de uma ação cuidadosamente calculada:

Os que são hábeis no combate não se encolerizam, os que são hábeis na vitória não se amedrontam. Assim, os sábios vencem antes de lutar enquanto que os ignorantes lutam para vencer.

Na sequência, Zhuge cita A Arte da Guerra diretamente, acrescentando as advertências de Sun Tzu sobre as consequências do planejamento medíocre, de ações extravagantes e de pessoal perdulário:

Um país se desgasta quando precisa adquirir suprimentos por altos preços e empobrece quando transporta mercadorias por longas distâncias. Os ataques não devem ser repetidos, e as batalhas não devem se multiplicar. Usa a força de acordo com a necessidade, consciente de que, com uso excessivo, ela irá se debilitar. Livra-te do que não tem valor, e o país estará em paz; desfaze-te do incompetente, e a nação será beneficiada.

Finalmente Zhuge reporta-se à tradição do Tao-Te King, de A Arte da Guerra e de Os Mestres de Huainan para dar a vitória ao insondável:

Um ataque bem-feito é aquele contra o qual os adversários não sabem como se defender; uma defesa bem-feita é aquela que os inimigos não sabem como atacar. Portanto, os que são hábeis na defesa não são assim devido aos muros da fortaleza.

É por isso que os muros altos e as valas profundas não garantem a segurança, do mesmo modo que uma forte armadura e armas eficazes não garantem a força. Se os inimigos querem manter uma posição firme, ataca onde estão despreparados; se os adversários querem estabelecer uma frente de batalha, aparece onde eles não te esperam.

Esta ideia de conhecer ao mesmo tempo que se mantém incógnito, repetida constantemente como uma chave para o sucesso, é um dos elos mais fortes entre a meditação taoísta e A Arte da Guerra, pois o segredo para esta arte da "invisibilidade" é precisamente o desapego interior cultivado pêlos taoístas para chegar a uma visão impessoal da realidade objetiva. Alguns ensinamentos filosóficos dos primórdios do Taoísmo são normalmente utilizados em escolas práticas como códigos para exercícios usados no desenvolvimento pessoal.

O aparente paradoxo de abordar a guerra com serenidade

Compreender o aspecto prático dos ensinamentos filosóficos taoístas permite superar a sensação de paradoxo passível de ser causada por atitudes aparentemente contraditórias. Pode parecer contraditório que Sun Tzu ensine com toda a calma a cruel arte da guerra ao mesmo tempo que condena a guerra. Essa contradição aparece se o fato for visto fora do contexto da compreensão total da mentalidade humana conforme é concebida pelo ensinamento taoísta.

A análise simultânea de pontos de vista muito diferentes é uma eficiente técnica taoísta, cuja compreensão pode resolver a contradição e o paradoxo. O modelo do paradoxo de A Arte da Guerra pode ser visto no Tao-Te King, em que tanto a crueldade quanto a bondade são parte do Caminho do sábio.

Céu e terra não são bondosos — para eles, todos os seres são como cães de palha; o sábio não é bondoso — para ele, os homens são como cães de palha

Nos anos cinquenta, logo após o armistício na Coreia, um sinólogo ocidental, horrorizado, escreveu que essa passagem havia "desatrelado um monstro", mas, para um taoísta, ela não representa desumanidade; antes, é um exercício de objetividade, semelhante aos exercícios budistas para a impessoalidade. Em termos modernos, este tipo de afirmação não é diferente da asserção de um psicólogo ou de um sociólogo que declara que as atitudes, pensamentos e expectativas de nações inteiras não se constituíram meramente por uma multidão de decisões racionais e independentes, mas em grande parte se formaram sob a influência de fatores ambientais que estão além do controle da pessoa e até mesmo da comunidade.

Como o clássico de Sun Tzu atesta, o lugar de uma observação dessas na arte da guerra não é fomentar uma atitude empedernida ou sangüinária, mas compreender o poder da psicologia de massas. Compreender como as pessoas podem ser manipuladas pelas emoções, por exemplo, é algo tão útil para os que querem evitar isto quanto para aqueles que desejam praticá-lo.

Considerada deste ponto de vista, A Arte da Guerra é um chamado às armas na mesma proporção em que um estudo sobre o condicionamento é uma recomendação para a escravatura. Ao analisar, de modo tão completo, os fatores políticos, psicológicos e materiais envolvidos no conflito, o objetivo expresso de Sun Tzu não foi o de encorajar à guerra, mas o de minimizá-la e aboli-la.

Uma visão impessoal da humanidade como alguém que não é senhor do próprio destino pode ser necessária para liberar um guerreiro do emaranhado emocional que poderia precipitar opiniões irracionais do conflito, mas, no esquema taoísta das coisas, essa visão não é mantida para justificar um comportamento destrutivo. O reverso dessa afirmação também pode ser encontrado no Tao-Te King, prefigurando os ensinamentos de Sun Tzu em A Arte da Guerra:

Tenho três tesouros que conservo e estimo: o primeiro é a bondade, o segundo é a frugalidade e o terceiro é a recusa a nutrir a presunção de prevalecer sobre os outros. Pela bondade, pode-se ser corajoso; pela frugalidade, pode-se ser generoso, e pela recusa a nutrir a presunção de prevalecer sobre os outros, pode-se sobreviver eficazmente. Se o homem abandonar a bondade e a coragem, se desistir da frugalidade e da liberalidade, e se desistir da humildade em favor da agressividade, seu destino será a morte. Ser bondoso na batalha faz com que se alcance a vitória; ser bondoso na defesa faz com que se tenha segurança.

No seu clássico, Mestre Sun compara a ação militar a um "fogo que se extinguira por si mesmo se não for detido", e se sua estratégia da vitória sem luta nem sempre era viável, a da hipereficiência podia pelo menos minimizar a violência e a destruição insensatas. Em termos taoístas, muitas vezes o sucesso é alcançado pela não-ação, e a estratégia de A Arte da Guerra consiste tanto em saber o que não fazer e quando não fazer, como também em saber o que fazer e quando fazer.

A arte da não-ação — que inclui a discrição, o fato de não ser conhecido e a intangibilidade no cerne das artes marciais esotéricas da Ásia — pertence ao ramo do Taoísmo conhecido como a ciência da essência. As artes da ação — que incluem as técnicas externas tanto das artes culturais como das marciais — pertencem ao ramo do Taoísmo conhecido como a ciência da vida. A ciência da essência tem que ver com o estado mental; a ciência da vida se relaciona com a energia. Como um texto taoísta clássico, é no equilíbrio dessas duas artes que se pode compreender mais plenamente A Arte da Guerra.

A história do Rei Macaco apreciada a partir da abordagem de Sun Tzu

Em época mais recente, a assertiva taoísta definitiva sobre esta questão está imortalizada na obra Jornada ao Oeste (Hsi-yu chilXiyou jí), um dos Quatro Livros Extraordinários da dinastia Ming (1368-1644). Baseando-se em fontes taoístas mais antigas, do tempo da guerra da China sob a pressão das invasões mongóis, este romance notável é uma representação clássica do resultado do que em termos taoístas seria chamado de estudo da ciência da vida sem a ciência da essência, do desenvolvimento material sem o correspondente desenvolvimento psicológico ou, nos termos de Sun Tzu, de ter força sem ter inteligência.

O Rei Macaco.

O personagem principal desse romance é um macaco mágico que funda uma civilização simiesca e se torna seu líder delimitando um território para os macacos. Posteriormente, o rei-macaco derrota um "demónio que confunde o mundo", roubando-lhe a espada.

Voltando à sua terra com a espada do demônio, o rei-macaco inicia a prática da esgrima. Ele chega ao ponto de ensinar seus súditos macacos a fabricar armas de brinquedo e insígnias reais para brincar de guerra.

Infelizmente, embora governante de uma nação, o rei-macaco ainda não governa a si mesmo. Num raciocínio retrospectivo eminentemente lógico, ele chega à conclusão de que se as nações vizinhas percebessem o jogo dos macacos, poderiam supor que eles estivessem se preparando para a guerra. Nesse caso, poderiam iniciar uma ação preemptiva contra os macacos, que então teriam de enfrentar uma guerra real munidos apenas de armas de brinquedo.

Assim, o rei-macaco dá início à corrida armamentista, ordenando o armazenamento, por preempção, de armas verdadeiras.

Se parece desconcertante ler uma descrição do século XIII sobre a política do século XX, não menos o é ler um livro tão antigo como a Bíblia, ela também apresentando descrições de táticas utilizadas ainda hoje por praticantes da guerrilha e por políticos e executivos influentes. Seguindo a postura de não-ilusão do Tao-Te King e de A Arte da Guerra, a história do rei-macaco também prefigura um movimento importante no pensamento científico moderno que se segue ao clímax do divórcio ocidental entre religião e ciência há muitos séculos.

O rei-macaco da história exerceu o poder sem sabedoria, rompendo a ordem natural e quase sempre criando confusão até ser preso nos limites da matéria. Aí ele perdeu a excitação do entusiasmo impulsivo, até ser solto para ir em busca da ciência da essência, sob a condição estrita de que seu conhecimento e poder fossem controlados pela compaixão, a expressão da sabedoria e da unidade do ser.

A derrocada do macaco finalmente acontece quando encontra Buda, a quem os imortais dos céus taoístas convocam para lidar com a besta intratável. Os imortais haviam tentado "cozinhar" o macaco no "caldeirão dos oito trigramas", isto é, fazê-lo passar por um treinamento em alquimia espiritual baseado no I Ching, mas ele saltou do caldeirão ainda despreparado.

Buda vence o orgulho do macaco demonstrando a lei insuperável da relatividade universal e o aprisiona na "montanha dos cinco elementos", o mundo da matéria e da energia, onde ele padece as consequências por seus gracejos arrogantes.

Depois de quinhentos anos, finalmente Guanyin (Kuan Yin), o santo budista trans-histórico tradicionalmente honrado como a personificação da compaixão universal, apresenta-se na prisão do agora arrependido macaco e recita estes notáveis versos: Infelizmente, o macaco mágico não cuidou da coisa pública Quando, antigamente, de modo insensato, ele se jactava de suas extravagâncias.

Com um coração mal-intencionado, provocou desordem Na reunião dos imortais; Com irritação profunda, foi em busca do seu ego. No céu da felicidade. Em meio a milhares de combatentes, Ninguém podia enfrentá-lo; No mais alto dos céus, Ele tinha uma presença assustadora. Mas visto que foi barrado ao encontrar nosso Buda, Quando irá ele alcançar seus objetivos e novamente mostrar suas realizações?

Então, ambos põem-se a rezar, e com o santo o macaco suplica pela sua libertação. O santo lhe garante a libertação sob a condição de que se devote à busca da iluminação superior, não só para si mesmo mas para toda a sociedade. Finalmente, antes que o macaco dê o primeiro passo na longa estrada, o santo, como precaução, ajusta um aro ao redor da cabeça do macaco, um aro que pode apertar e causar-lhe uma dor imensa sempre que proferir uma certa invocação pedindo compaixão em resposta a qualquer novo desvio de comportamento.

Centenas de gerações consideram A Arte da Guerra o clássico insuperável em termos de estratégia; muito provavelmente, porém, sua maior magia esteja na auréola de compaixão que Mestre Sun adapta na cabeça de todo guerreiro que tente usar este livro. E como a história mostra, a invocação mágica que aperta essa aureola é entoada sempre que o guerreiro se esquece dela.

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