Em dias como os de hoje, uma pessoa olha para as cotações e pergunta-se o que se terá passado. Brisa -4.29%, EDP -1.75%, PT -1.59%...
Seriam as eleições e o mercado a reagir mal aos resultados? Uma passagem de olhos pelo Estrangeiro mostra que não, com coisas como EON -3.15%, RWE -3.33%, Suez -4.11%, Vivendi -3.63%, ACS -3.94%, Ferrovial -5.52%, Iberdrola -3.00%, Union Fenosa -2.68% ...
Então, perante tal cenário, será que os mercados implodiram? Alguma notícia mais grave que provocasse a derrocada em tantos papéis relativamente estáveis, a maioria dos quais com dividendos bastante elevados (3-4%) e também relativamente bem avaliados ou baratos ...? Também não. Índices como o DAX caíram apenas 0.14%, e mesmo o PSI 20 ou o Ibex caíram pouco mais de 1%.
E isto num dia em que nem sequer estiveram abertos os mercados americanos, e não se deu por lá nenhuma derrocada que pudesse afectar a Europa.
Então, o que se passou?
Bem, simplesmente, a Lehman Brothers “descobriu”, alguns dias depois de as taxas longas terem começado a subir, e tendo estas subido relativamente pouco (cerca de 0.30% nos EUA), que neste momento não faria sentido deter utilities ou outros papéis relativamente estáveis. Que os Institucionais fariam melhor em mudar os seus portfolios para algo menos exposto à subida de taxas.
E de seguida, um pequeno movimento de taxas ajudado por um grande batalhão de vendedores fez o resto. E fez-nos lembrar como os grandes brokers ainda têm o poder de mover os mercados com a sua opinião (e a sua força de vendas), esteja ela errada ou certa. Assim, dias depois de a JP Morgan ter achado nas telecoms europeias que a história da valorização e do retorno de capital ao accionista estava muito “gasta” (como se alguma vez tais temas pudessem estar gastos enquanto perdurarem) tendo despoletando um derretimento destas acções que - relembro - estão entre as mais razoáveis no mercado neste momento, eis que a Lehman Brothers “decide” que as Utilities em geral merecem o mesmo tratamento.
Além de ser uma lição em como no curto prazo a opinião de um grande broker vale muito no mercado, esta situação também serve para ilustrar um outro fenómeno: por vezes, histórias que poderiam ter impacto no mercado, só o têm quando um grande broker decide que lhes pode dar relevância. A subida de taxas não é de hoje (nem é ainda particularmente relevante). A subida brutal de produção de aço por parte da China também não, mas ainda não lhe foi dada relevância, até ao dia que uma Lehman Brothers ou uma Goldman Sachs decide que é importante (ainda hoje foram divulgadas estatísticas de produção de Aço para Janeiro ... cresceu a produção mundial cerca de 8.4%, fora da China cresceu 3.4% ... na China, que fez a diferença, cresceu 24%, MUITO acima do crescimento de consumo Chinês).
Bem, consoante os casos convém determinar se acreditamos na opinião do broker em questão e no que a motiva. No caso das telecoms e das utilities eléctricas, temos várias instâncias de papéis a transaccionar com PER’s de 10-13, Dividend Yields 3-4%, EV/EBITDAs de 5-8, EV/FCF 8-12 e sem grandes perspectivas de a rendibilidade das empresas em questão cair, pelo que se pode dizer que a maioria estão baratas e isto será apenas um buraco na estrada do qual elas recuperarão. Assim o que se passou hoje (e possivelmente ainda terá reflexos em mais algumas sessões no máximo) será uma oportunidade de compra.
Pena é que este tipo de “chamadas de atenção” dos grandes brokers nunca, ou raramente, aconteça em situações de bolhas claras...
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