Análise Técnica - O que é, quanto vale (II) Imprimir E-mail
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(Parte I)

 

Caos

 

O mercado de capitais não é simples, alias podemos dizer que é um CAOS. O mercado de capitais desenvolve-se em ciclos. Contudo, tal uma escada espiral, quando o curso dos acontecimentos completa um circulo, fá-lo a um outro nível. O “movimento pendular” das mudanças não se limita a repetir os mesmos acontecimentos vezes sem conta. Um desses ciclos em espiral é o CAOS a dar lugar à ordem, que, por sua vez, origina novas formas de caos.

 

Entende-se que a Análise Técnica, neste ciclo de oscilação do pêndulo, serve para domesticar o caos e não destruí-lo o que poderá acontecer se utiliza isoladamente para uma acção sem se tomar em conta a tendência geral do mercado ou do sector.

 

Assim como natureza, os fenómenos metereológicos por exemplo, a AT tem muitas regularidades que podem ser registadas, analisadas, previstas e exploradas. No entanto não podemos encarar a AT como uma lei única e determinante por si só para uma acção isolada, não serve explicar um determinado movimento da cotação de um titulo com a implicação dessa leis e esquecer o mercado/sector, pois seria o mesmo que recolher dados metereológicos e fazer uma previsão esquecendo completamente o local as suas características. O mundo não é mecânico, porque é que o movimento isolado de um titulo o seria?

 

O movimento das acções, assim como acontece com a natureza, é determinado por um conjunto de variáveis e factores. Acontecimentos fundamentais, como a desintegração de um átomo radioactivo ou a negociação em estado de “ex-dividend”, passam a ser determinados pelo acaso, não por leis precisas e imutáveis. Já Einstein numa carta a Max Born, punha em causa o determinismo da lei face ao carácter aleatório do acaso.

 

O ciclo completa-se, mas a um nível diferente, já que começamos a descobrir que sistemas que obedecem a leis precisas e imutáveis nem sempre se comportam de modo regular e previsível. Leis simples podem não produzir comportamento simples e por isso não podemos pensar num mercado simples. Ë neste momento que devemos pensar para lá da Analise Técnica como apresentam alguns analistas técnicos, pura, simples e determinista. Alguns analista técnicos tornam a analise tão determinista que essa ordem pode gerar o CAOS. Leis deterministas podem produzir o comportamento que parece aleatório. Então devemos utilizar a AT com um conjunto de soluções que nos permitam flexibilizar essa lei determinista e preparar-nos para eventuais erros. Sendo que primeiro, o importante é saber COMO a cotação de um titulo faz determinado movimento e não tanto saber SE o faz. Depois de analisarmos e descobrimos como faz a cotação de um titulo determinado movimento, temos de partir para lá da AT. Ë a altura de estabelecer “planos” de acção concretos e objectivos, determinando como agir e que decisões a tomar, no acaso de o movimento da cotação não fazer como, normalmente, faz e, no caso, de o movimento da cotação fazer como faz. Falamos, evidentemente, de “stop loss”, “stop trailing” e “Price Objective”.

 

Os conceitos de previsão, ou de uma experiência re-iterável, assumem novos contornos quando vistos pelos olhos do CAOS e é aqui que vamos aproveitar para mostrar a importância de ir mais além na AT. O que pensamos ser “simples” e “puro” torna-se complicado, e novas e perturbadoras interrogações se levantam a propósito de dimensões, de previsibilidade e de verificação ou falsificação de teorias. Em contrapartida, podemos tornar o complicado em simples pois os fenómenos que parecem aleatórios e desprovidos de estrutura ou sentido podem, de facto, obedecer a leis simples. O caos determinista tem as próprias leis. Isso esta, por exemplo, na meteorologia, na irregularidade da pulsação cardíaca, no gotejar de uma torneira, no partir de um copo no chão e por ai fora.

 

Analise Técnica pode gerar resultados positivos enquanto a sua existência e compreensão estiver enquadrado na vontade do “cérebro humano”. Já dizia Eugene Wigner, que escreveu sobre a “eficiência da irracionalidade matemática”, “Talvez a matemática seja eficiente ao representar a linguagem subjacente ao cérebro humano. Talvez os únicos padrões de que nos apercebemos sejam matemáticos por ela ser o INSTRUMENTO DA NOSSA PERCEPÇÃO. Talvez seja eficiente a organizar a existência física porque é inspirada por existência física. Talvez não existam padrões reais, mas apenas aqueles que nós, de espirito fraco, impomos.”. É neste contexto que a Analise Técnica de um determinada acção não pode ser separada do mercado/sector, que é a parte “física” do sistema. Analise ao mercado/sector é a parte o­nde podemos percepcionar a vontade real da massa, do modo como a as expectativas do conjunto de investidores vão influenciar o modo de o investidor ver o titulo e consequentemente vender ou comprar e levar a cotação a seguir determinado sentido, movido por linguagem humana o­nde entra o sentimento, o medo, ganância e etc.

 

 

Analise técnica é uma maquina gigantesca

 

A AT é um maquina gigantesca, funcionando como o “mecanismo de um relógio”, para representar o auge em fiabilidade e perfeição mecânica. Sob tal perspectiva, a AT (uma maquina) é, acima de tudo, previsível. Em condições idênticas um analista técnico, assim como um relojoeiro que conheça as especificações da maquina e o respectivo estado em qualquer momento particular pode calcular exactamente o que fará. Mas na verdade existem variações de estados que impossibilita determinar exactamente o que fará apenas com o conhecimento das especificações da maquina

 

“Uma inteligência que num dado momento conhecesse todas as forças que animam a Natureza e as respectivas posições das entidades que a compõem, se fosse capaz de submeter os dados a análise, poderia condensar numa única fórmula o movimento dos maiores corpos do universo e do menor átomo; para tal a inteligência nada seria incerto, e o futuro, tal como o passado, estaria presente diante os seus olhos.” – Teoria de Laplace

 

Esta teoria de Laplace é o mesmo que dizer que conhecendo os diversos indicadores que representa o movimento de uma acção, sabendo como cada um deles reage, podemos prever o movimento da cotação desde o momento que estamos analisar ao momento que acabamos, ou seja, de um modo mais ambicioso, conhecidas as posições, as tendências, os estocasticos, MACDs e etc, num determinado instante, todos os movimentos subsequentes da cotação desse titulo em analise são singularmente determinados.

 

Esta afirmação pressupõe, por simplicidade, que não há influências exteriores ao movimento do titulo. Se consideramos também esta, somos obrigados a concluir que as posições e velocidades de cada partícula que matéria no universo inteiro, tomadas num instante particular, determinam completamente a sua evolução futura. O universo segue um caminho dinâmico único e predeterminado.

 

Esta conclusão aterradora é, na verdade, consequência de um simples teorema matemático de unicidade.

 

Por esse motivo não podemos ver a Analise Técnica de uma forma isolado e determinista, mas sim usa-la para avaliar o movimento da cotação de um titulo, como indicador do momento e tendência, dentro de uma estratégia de “trading” bem definida (“stops” e “targets”) e dentro do mercado o­nde se encontra. A analise do gráfico de uma forma pura e isolada, pode dar bons resultados mas senão usada dentro de uma estratégia bem definida e regida, cumprida com disciplina, não acredito que os resultados sejam consistentes.

 

Podemos efectivamente utilizar a AT, ou melhor, devemos utilizar a AT para encontrar-mos um determinado conjunto de informações que nos permita tirar uma melhor rentabilidade dos investimentos conhecendo o momento de entrada e saída e a direcção a tomar. Mas, tão importante ao mais, é estabelecermos um “trading plan” que deve ser cumprindo e respeitado em todos os momentos. Devemos definir antecipadamente um “stop loss” e um preço objectivo que devemos ter a disciplina para cumprir, de forma a cortar o mais rapidamente as perdas e deixar correr o mais possível os ganhos. Desta forma, mesmo que um sinal técnico nos conduza a uma decisão que se vá traduzir num mau resultado, essa decisão nunca vai ser errada dentro do conjunto das decisões do “trading plan”. Uma decisão com resultados maus vai fazer parte das decisões com ganhos bons e vice-versa. Ou seja, os “stop loss” vão limitar os maus resultados de uma decisão e deixar correr os bons resultados de uma outra decisão, desta forma vamos conseguir explorar o mais possível essa decisão e obter excelentes resultados.

 

Num “trading plan” não há mas decisões, mas sim e apenas decisões com bons ou maus resultados. Por isso a disciplina, que é uma questão de gestão de risco, deve ser encarada seriamente e cumprida religiosamente, ao ponto de podermos dizer que nunca nos enganamos.

 

Não é ousado dizer que nunca nos enganamos se cumprirmos a risca o “trading plan”, porque o que estamos a fazer é cumprir o estabelecido, não cumprir é que seria o erro e, estou certo, daria resultados desastrosos. As decisões dentro de um “trading plan”, por muito tentador que seja não cumprir, tem de ser respeitadas. O “trading plan”, ainda mais do que AT em si, permite distanciarmo-nos da emoção e da massa. Se executarmos correctamente o “trading plan” vamos evitar vender antes do tempo só pelo sentido natural de querer obter ganhos imediatos, vamos evitar esticar o trade demais só pela ganância, vamos evitar acumular perdas só porque não queremos assumir um trade perdedor e por isso ate acreditamos que vai subir, vamos evitar vender porque estamos com medo. Afastamos as “bolhas” e os “panic sell”, assim como outras emoções normalmente perdedoras. Mesmo que a determinada altura, num momento particular, verifiquem que o vosso “feeling” teria batido o “trading plan”, lembre-se da seguinte analogia:

 

1 - Tem à sua frente um conjunto de 10 caixas individuais. Nesse conjunto, 9 caixas contem um gás de tal maneira venenoso que se aberta a caixa o gás o matara instantaneamente e 1 caixa com bilhete de lotaria premiado. Faziam-lhe a proposta de abrir uma das caixas e ficar com o conteúdo. O que faria? Certamente não aceitava a proposta e, apesar do aliciante prémio, não tentaria abrir nenhuma caixa correndo o risco de morrer. Mesmo que o seu “feeling” apontasse a sua escolha para uma determinada caixa, que, posteriormente se viesse a verificar ser a que tinha o bilhete de lotaria premiado, é isento de duvida que, mesmo assim, tomou a decisão correcta.

 

2 - Agora, noutro cenário, com o mesmo conjunto de caixas, só que substituindo o gás letal por uma pequena multa fácil de pagar. O que faria? Certamente aceitava a proposta e, apesar das pequenas multas, abriria uma caixa tentando ganhar a lotaria. Mesmo que abrisse a caixa que tem a multa, é também aqui isento de duvida, que tomou a decisão correcta.

 

Vemos que, em qualquer dos cenários, apesar da sua decisão não ter dado bons resultados, foi, inequivocamente, a decisão correcta. O mesmo acontece quando se cumpre criteriosamente o “trading plan”, apesar dos resultados de uma decisão poderem ser francamente maus, a decisão é sempre correcta.

 

 

Um analista técnico é como um meteorologista

 

Um analista técnico é como um meteorologista que consegue prever o tempo, mas prever não quer dizer que preveja exactamente e correctamente. Certamente que já lhe aconteceu sair de casa num dia que se lhe anunciava solarengo e apanhar uma valente chuvada.

 

A analise técnica pode-se comparar a meteorologia pois permite ao analista técnico, do mesmo modo que o meteorologista prevê o tempo, prever a oscilação dos preços.

 

A previsão numérica do tempo (sentindo meteorológico) e da oscilação dos preços são descritos atribuindo determinados indicadores, Estocástico, Pressão, CCI, temperatura, MACD, humidade, RSI, velocidade do vento. Estes são alguns indicadores da AT e da metereológica.

 

O tempo, a cotação, correspondem a uma posição num grande jogo de números, mas a disposição desse números é sempre diferente. Podemos medir o tempo e o movimento das cotações usando estações meteorológicas, CCIs, navios, “candles”, balões, medias e etc. Portanto sabemos como dispor os números. O problema é: QUAIS SÃO AS REGRAS DO JOGO.

 

As regras são as equações do movimento da atmosfera e das cotações.

 

Condensando o tempo, digamos, num espaço de um segundo, as equações podem ser vistas como regras que nos dizem como obter a posição dos números no próximo segundo. Por isto a AT e a meteorologia são importantes para determinar que posição tomar num determinado titulo, qual a melhor altura para plantar batatas.

 

O mercado de capitais é como atmosfera, só que em vez de ser constituída por uma serie de pequenos átomos em movimento, que colidindo uns com os outros alteram o seu movimento e comportamento, é constituído por uma serie de pequenos intervenientes (investidores) em movimento colidindo os interesses de uns com o dos outros.

 

Da mesma maneira que nem um computador pode seguir cada átomo particular da atmosfera, a AT não pode seguir cada investidor particular e com vontade própria e por isso o numero de variáveis envolvidas no modelo é, de longe, demasiado grande para um computador, para um analista, para a análise técnica.

 

Evidentemente se fosse possível seguir cada átomo era possível saber com exactidão o tempo que ira fazer, da mesma forma que se fosse possível seguir cada investidor saberíamos exactamente qual o movimento das cotações, pois era simplesmente matemático, o que acontece, saberíamos que B vende X a Y de Z e por isso o movimento seria facilmente conhecido.

 

Por haver esta variedade é que a análise técnica, assim como a meteorologia, em determinado momento não consegue adivinhar determinados movimentos. Ambas falham por não conseguirem não prever, ou seja, a analise técnica e a meteorologia, com base numa serie de dados, só conseguem prever o que poderá acontecer mas são inúteis quando se pretende prever o que não se prevê.

 

São vários os casos em que a meteorologia, que facilmente podemos transportar para o ambiente da análise técnica, falha. Há na historia da meteorologia casos em que esta falhou redondamente na previsão de certas catástrofes, algumas vezes, porque estatisticamente era quase impossível determinados acontecimentos, ignoraram outros dados, não estáticos, como a sensibilidade (como conhecimento milenar dos povos, mecanização do cérebro como reacção a certas condições), noticiais e um sem numero de outro avisos. Como é o exemplo de uma povoação o­nde raramente chovia e, apesar das noticias que davam contam de uma tempestade próxima, a meteorologia apenas previa sol com a possibilidade de alguns aguaceiros e negavam qualquer possibilidade de tempestade porque estatisticamente nunca, naquela terra, tinha acontecido umaintempérie semelhante.

 

Na analise técnica, estatisticamente podemos prever certos e determinados movimentos mas por vezes, essa mesma estática, não nos deixa ver mais além, da mesma maneira que não deixou que os meteorologista acreditarem na tempestade que as noticias davam conta que se poderia estar a deslocar para a tal povoação, ou seja, se para além do meteorologista prever os aguaceiros o conhecimento da envolvente (mercado/sector) e da tempestade que passava próximo poderia alertar para a eventualidade desta catástrofe afectar essa terra, da mesma maneira que se estivermos atentos a ao movimento do mercado e do sector, poderemos estar alerta para eventuais movimentos, com sinais que nos devem ser confirmados pela AT.

 

Vemos aqui e com este exemplo, que apesar de o gráfico poder indicar claramente um certo movimento, do mesmo modo que os sinais metereológicos previam apenas pequenos aguaceiros, o analista técnico deve observar claramente o mercado e o sector o­nde o titulo se movimenta e decidir também em função disso. Na meteorologia este sinais seriam as reacções dos animais e das pessoas a certas condições atmosféricas e etc. Por fim ,o Analista Técnico tem de se precaver para a eventualidade da analise técnica/estatística estar errada e o “aguaceiro” ser mais do que uma “tempestade” . Mais uma vez vemos a importância do “trading plan”.

 

 

Comentários

Existe no fórum o seguinte tópico destinado a comentar este artigo:

http://www.thinkfn.com/forum/viewtopic.php?t=1006 

 

 

Octávio Viana

 

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