Manipulação Imprimir E-mail
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Manipular … perverter; corromper; viciar, especialmente para proveito próprio.

Não existe nenhuma definição estrita na lei, a não ser uma visão geral de que manipular é subverter o normal funcionamento de um Mercado aberto, e faze-lo produzir um preço que de outra forma não produziria pela normal luta da procura e oferta. E fazer tal com a intenção de produzir esse resultado, e dele beneficiar.

Para uma actividade definida tão vagamente, é bastante incrível a quantidade de tinta que faz correr, e de angústia que produz. É também bastante difícil provar que alguma manipulação alguma vez tem lugar, e de distingui-la do normal funcionamento do mercado.

No entanto, existem várias técnicas manipulativas que vêm sendo recorrentemente utilizadas ao longo da história, e que ainda são usadas hoje. E muitas delas nem sequer são ilegais. Este artigo servirá para explicar algumas dessas técnicas, tais como:

 

Short Squeeze

Um “Short Squeeze” acontece quando, devido a um preço em subida, os intervenientes que possuem posições curtas no mercado se vêem forçados a fecha-las, seja por força de “margin calls”, seja porque não querem arriscar mais do seu dinheiro ou rendibilidade. Os “Short Squeezes” podem autoalimentar-se, uma vez que a razão que leva os intervenientes a abrir posições curtas muitas vezes não desaparece, pelo que o preço mais elevado proporcionado por uma o­nda de fecho de posições curtas apenas leva a uma nova abertura de posições curtas, produzindo um “rolling short squeeze” (short squeeze em contínuo). Empiricamente, o “short interest” (quantidade de posições curtas abertas) num título não decresce com subidas de preço, a menos que o catalisador que levou ao aparecimento dessas posições curtas desapareça, pelo que a maioria dos “short squeezes” tendem a ser do tipo “rolling short squeezes”.

Porque é que um “short squeeze” pode ser manipulação? Simplesmente, um short squeeze é manipulativo quando as posições longas que o despoletam estão a ser tomadas não porque exista qualquer desequilíbrio procura/oferta ou razão fundamental, mas sim porque os compradores estão conscientes que se comprarem com agressividade suficiente, eles farão o short squeeze acontecer, e esse short squeeze providenciar-lhes-á preços mais elevados aos quais poderão vender as posições que tomaram para o criar.

 

Corner

Fazer um “Corner” a um mercado é tomar o controlo desse mercado. Isto acontece quando um um interveniente ou grupo de intervenientes compra tanto de um dado título/commodity que pouco desse título/commodity resta no mercado, e esse indivíduo ou grupo acabam definindo o preço do activo acima de qualquer considerando de procura/oferta. Isto pode levar aos mais gigantescos “short squeezes” entre aqueles que querendo ou não, se encontram presos do lado contrário desse trade.

Dois dos mais famosos corners da história foram o corner da Prata feito pelos Irmãos Hunt no final dos anos 70, e o corner do Cobre efectuado pelo Sumitomo a meio dos anos 90. Ambos acabaram mal para os seus promotores, eventualmente levando à falência os Irmãos Hunt, e provocando uma perda pesada ao Sumitomo.

O corner da Prata é particularmente interessante, pela forma como foi destruído por alterações das regras de transacção que na essência proibiram a tomada de novas posições longas especulativas, tornando a implosão inevitável.

Para ler mais sobre o corner da Prata dos Irmãos Hunt, pode seguir este link:

http://www.gold-eagle.com/editorials_04/laborde012704.html

Para ler mais sobre o corner do Cobre do Sumitomo, e outras manipulações semelhantes, pode ir aqui:

http://www.financialpolicy.org/DSCSPB3.htm

 

Wash Sales/Matched Sales (Encontros/Negócios fictícios)

Os negócios fictícis (Wash Sales), são trades em que o comprador e vendedor são a mesma entidade, ou duas entidades que combinaram ir sucessivamente trocando o mesmo papel de um lado para o outro entre elas. O propósito desta táctica é dar a impressão de um Mercado activo, sendo que é bem conhecido que a existência de volume e actividade atrai outros traders para o activo em questão.

É manipulação, na medida que esses trades não servem qualquer outro propósito que não seja atrair outros players para o mercado. Ainda assim, ninguém se pergunta o quão racionais esses players atraídos serão, já que parecem sentir a necessidade de se envolverem na transacção desses activos apenas porque vêem movimento, sem no fundo terem qualquer opinião ou motivo para entrarem no activo. Mas um facto é que funciona. E por vezes, grandes especuladores utilizam ainda uma variante desta técnica, que consiste em comprar e vender ao mercado com margens de ganhos ou perdas mínimas, essencialmente duplicando o efeito pretendido sem que sejam tidos como “manipuladores” pelas autoridades. É o tipo de coisa, por exemplo, que leva papéis a entrar no PSI20.

 

Compras/Vendas Agressivas

Muitas vezes, o nível de agressividade na execução de uma ordem de compra/venda encerra em si próprio uma intenção de manipular. Por exemplo, se uma entidade já possui milhões de títulos de uma dada acção e comprar 100 000 em 5 minutos em vez de o fazer em 2 horas, produzirá muito mais movimento no preço, e essa entidade pode muito bem decidir faze-lo no intervalo de tempo mais curto, não porque queira obter o melhor preço, mas sim porque quer maximizar o seu impacto no mercado.

Este tipo de técnica também é muitas vezes usado no final de ordens grande, especialmente quando estas foram delegadas num broker. O broker, querendo mostrar um bom serviço, tentará obter o melhor preço possível na maior parte da ordem, e depois tentará mover o mercado o mais possível a favor da ordem (compra, para cima, venda, para baixo) na parte final da ordem, isto para que possa depois voltar ao seu cliente e dizer-lhe que a totalidade da ordem foi efectuada ao preço médio X, e que a acção fechou a X + Y%, fazendo dele um herói instantâneo aos olhos do seu (grande) cliente, e propiciando a obtenção de mais negócio no futuro.

Outra instância que acontece muito, é na actuação de fundos indexados. Os fundos indexados realmente não se importam a que preço compram uma dada acção, ou a que preço a vendem. Eles só têm uma necessidade absoluta: necessitam de comprar a um preço médio que seja igual ou inferior ao fecho, e vender a um preço médio que seja igual ou superior ao fecho. Qualquer outro desfecho leva a perdas de performance do fundo indexado face ao mercado. E então o que fazem estes fundos? Fazem 2 coisas: uma é concentrar as suas ordens próximo do fecho do mercado (para que nenhum evento que perturbe significativamente o preço entre a suas ordens e o fecho possa acontecer), e outra é serem extra agressivos no fecho/final da ordem, por forma a que o mercado se mova no sentido da totalidade da ordem.

Finalmente, os últimos trouxeram a prática por muitos fundos, de simplesmente muito agressivos a comprar acções nas quais já possuem posições substanciais. Se já tem em carteira milhões de acções de uma determinada espécie e entra mais dinheiro no fundo, acabará a comprar acções nas quais já detém estas posições enormes, e a melhor forma de melhorar a performance do fundo como um todo será assim ser extra-agressivo e ter o máximo de impacto no mercado possível, uma vez que estará a beneficiar posições já existentes.

É de levar em conta que nenhuma destas práticas descritas acima está a ser activamente perseguida por nenhum regulador de mercado, por isso é provável que elas se tornem ainda mais usadas e aberrantes.

 

Pools

Pools são grupos de pessoas/entidades que se organizam e programam “ataques” a determinados activos. Por vezes estes grupos estão organizados em círculos concêntricos em que níveis cada vez mais inferiores vão sabendo qual o título que está debaixo de ataque, sucessivamente mais tarde até que chega ao público em geral (neste caso, pela evidência de um movimento em volume e preço anormal). De certa forma, isto funciona como uma combinação de trades fictícios (os primeiros níveis aumentam a actividade no título) e Front Running (compras antecipadas) (os primeiros níveis sabem que outras pessoas de níveis mais baixos ou da população em geral irão comprar mais tarde).

É manipulação, porque toda esta organização está orientada para promover uma determinada acção, e mesmo que exista uma lógica para promover essa acção, a razão pela qual a promoção é feita é a eficácia da organização e não a relevância dessa lógica (tem que existir uma lógica para que a população em geral compre, de outra forma não faria sentido participar nos níveis mais baixos da organização).

 

Window Dressing (compor a montra)

O Window Dressing normalmente é uma combinação de duas práticas diferentes:

Uma (dúbia na minha opinião) é a prática de se vender títulos perdedores e comprar títulos que foram vencedores no final de um determinado período de reporte, de tal forma a que as pessoas que vejam o prospecto do fundo, vejam na composição deste muitos títulos “bons” (porque subiram) e poucos “maus” (porque caíram).. Para mim isto não faz sentido, porque não esconde a performance real do fundo, e de que adianta mostrar vencedores, se a performance do fundo não prestar?

A outra prática, muito mais presente e eficiente, é simplesmente fazer algumas compras agressivas em acções nas quais os fundos já possuam posições relevantes, isto perto do final de um período de reporte (mês, trimestre, ano). Se as acções alvejadas forem suficientemente ilíquidas, esta actividade terá muito impacto no mercado, e levará mesmo a uma subida considerável da performance reportada pelo fundo no período em questão (com a possível desvantagem de que funcionará como uma droga, já que as posições assim inflaccionadas tenderão a perder algum ar no próximo período de reporte, criando aí dificuldades acrescidas).

Um exemplo disto foi dado no meu artigo recente: Final do Ano ...

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Pump & Dump

O “Pump & Dump” consiste em utilizar os media, publicações de research, fóruns ou qualquer outra forma de chegar ao público investidor, para publicitar um dado activo no qual se tenha uma posição que se deseja vender.

Esta prática foi muito publicitada nos media em alguns casos em que os fóruns da internet foram usados para promover acções pouco líquidas que transaccionam em mercados secundários, sendo que os promotores depois vendiam ao mesmo tempo que promoviam essas acções. Muitas vezes esta prática é combinada com outras práticas como os negócios fictícios, para dar a aparência de um mercado activo nas acções assim inflaccionadas.

Uma das instâncias mais famosas desta prática (talvez até não intencional), foi quando Jeff Vinik, o gestor do Fidelity Magellan, o maior fundo de gestão activa de acções no mundo, estavanuma conferência a falar bem das acções de semicondutores ao mesmo tempo que o seu fundo vendia dessas acções no mercado.

Elliot Spitzer, na sua cruzada contra as más práticas em Wall Street, também descobriu alguns e-mails interessantes em que analistas se referiam a algumas dotcoms altamente inflaccionadas que eles cobriam como sendo “POS” (montes de merda), isto ao mesmo tempo que nos seus relatórios de research sobre essas mesmas acções lhes atribuíam recomendações de “Comprar” e “Comprar Forte”, evidentemente porque queriam obter parte dos ganhos que vinham de vender essas mesmas acções ao público investidor (em OPV’s). Isto também se qualificaria como um “Pump & Dump”.

 

Short & Bash

O oposto de “Pump & Dump” é o “Short & Bash”. Quando se vende curto, cria-se a necessidade de recomprar, e para se ter lucro tem que se recomprar mais barato. Por isso, não é totalmente inédito que pessoas cheguem a extremos em termos de espalhar más falas sobre uma dada companhia na esperança de fazer as suas acções ficarem mais baratas. Isto, no entanto, é mais frequente quando já está estabelecida uma tendência de baixa (porque na maior parte dos casos, a especulação, bem como a manipulação, são feitos no sentido ascendente).

Por outro lado, as posições longa possuem uma boa dose de publicidade nos Meida que não é relacionada com manipulação, por isso e para sermos justos, seria de esperar que um pouco de más falas chegassem aos media sem que isso se qualificasse como “Short & Bash”. De facto, só costuma ser considerado “Short & Bash” quando os factos publicitados são falsos ou altamente exagerados na sua importância.

Um case study de “Short & Bash” levado ao extremo, foi a novela à volta de Fresh del Monte (FDP), o­nde os fundos que estavam curtos nesta foram tão longe ao ponto de arranjarem pessoas para interpor acções judiciais contra a companhia pelos mais diversas e improcedentes razões. Isto chegou ao ponto de uma analista saber das acções em tribunal antes de a companhia ter delas conhecimento. Esta analista também conseguia ao mesmo tempo ter as maiores estimativas na FDP, e a menor recomendação. A coisa acabou por ficar tão feia que a companhia simplesmente acabou por banir a dita analista das suas Conference Calls. Neste caso, embora o “Short & Bash” tenha funcionado temporariamente durante o Bear Market de 2002, em última análise acabou por falhar (o que, diga-se, acontece a muitas manipulações – muitas vezes falham revelando-se o mercado mais poderoso).

 

Front Running (compras antecipadas)

O “Front Running” acontece quando a única razão para uma dada ordem (de compra ou venda) é a crença ou certeza de que outras ordens no mesmo sentido estão prestes a atingir o mercado. Isto tem estado no centro de alguma controvérsia no NYSE (New York Stock Exchange) e não é inusual ouvir-se falar de brokers ou seus amigos a agir desta forma quando um grande cliente está a comprar ou vender.

Aliás, o próprio conceito de Order Flow (fluxo de ordens) é pelo menos parcialmente uma versão “soft” de front running. Afinal, o Order Flow tende a exibir alguma inércia, e isso significa que se o broker/market maker está a obter mais ordens de compra do que de venda, isso se continuará a verificar por mais algum tempo, podendo por isso tomar alguma “existência” (comprar para a carteira própria), subir o preço, e satisfazer esse order flow. Esta é uma das pedras base do market making, bem como de muito trading proprietário feito por brokers internacionais.

Num artigo relacionado, pode ver um estudo interessante sobre Market Makers e a sua reacção a alterações de recomendações por parte das suas casas-mãe:

Estudo - Market Makers Nasdaq

 

Comentários

Existe no fórum o seguinte tópico destinado a comentar este artigo:

http://www.thinkfn.com/forum/viewtopic.php?t=624 

 

Até à próxima. O meu Mail é . Agradeço informações e perguntas interessantes. Nunca se esqueçam de ler os artigos que estão no histórico, não olhem só para o último.

 

Disclaimer: Este comentário é um artigo de opinião e nunca uma recomendação de compra ou venda. Alerta-se ainda que a compra ou venda é da responsabilidade do investidor bem como o lucro ou perda daí existente. O Autor pode ter, e provavelmente tem, posições nos títulos referidos neste artigo. Em caso de dúvidas, deverá o investidor procurar um intermediário financeiro, a Euronext, ou a CMVM.

 

 

 

 

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